- Autor
- André Medina Carone
- Orientador(a)
- Paulo Roberto Licht dos Santos
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS — UFSCAR
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2008
A descrição de um estilo parece ficar à margem do essencial. Seu alvo é o modo de.expressão de certa idéia e não o conteúdo. Ela estaria destinada a tocar em questões sem jamais.entrar nelas, acompanhando à distância, por uma via secundária, o cerne das coisas. Este desvio.passa a ser mais grave se o autor de quem falamos apresenta-se como """"um investigador da.natureza, e não um poeta1"""". O risco consistiria neste caso em sobrevalorizar traços aparentes da.escrita, que não podem ser assimilados a um modelo coerente de explicação. Se cedemos.espaço aos elementos singulares da escrita como ritmo, variações de perspectiva ou.vocabulário, eliminamos a possibilidade de compreender uma investigação de modo rigoroso. E.são justamente os elementos singulares que emergem do contato com a vida íntima do texto..Aproximar-se do estilo implicaria o risco de uma traição ao conteúdo das idéias no momento.em que elas estão mais próximas, pois tentamos buscar nos detalhes que excedem ao esquema.geral da teoria uma explicação para a própria teoria..As premissas desse impasse aparente fazem crer que um estudo a respeito de Freud.como escritor exige a suspensão do juízo sobre a verdade da psicanálise em troca do contato.com um material singular e irredutível a uma ordem de razões, conduzindo-nos a uma confusão.entre arte e ciência em que teses e argumentos são estetizadas como se devessem agradar e não.serem compreendidos. Mas toda a série de oposições que faz parecer natural a divisão entre a.coisa verdadeira e seu modo de expressão - traços aparentes contra traços determinantes,.excedente contra essência, subjetivo contra objetivo - prende-se mais ao que deve ser a prosa de.criadores teóricos do que à prosa que eles de fato realizam. Com esta separação, tomada como.algo evidente em si mesmo, deixa-se de ver que o ponto de chegada em um estudo sobre o.estilo não é menos suspeito do que o ponto de partida que o condena ao pressupor em silêncio.que podemos atingir conteúdos sem antes nos remetermos à linguagem que os transmitem,.como se eles estivessem dados num campo de pura transparência e não se construíssem dentro.da linguagem. Tudo transcorre como se a atividade que fabrica os arranjos e distinções.conceituais fosse efeito indesejado e obstáculo à transparência do conceito. O gesto de.desconfiança contra as imprecisões da linguagem, com o qual se quer reduzir a análise do estilo.a """"mera literatura"""", presume essa transparência quando deveria antes procurar demonstrá-la; e a.ausência desta pergunta cria a série de oposições que esvazia a questão do estilo - como se a.linguagem não fosse também ela um conteúdo - antes mesmo que se tenha encontrado os.termos que tornam viável a resposta..Este trabalho procura investigar três livros de Sigmund Freud - Estudos sobre a histeria,.A interpretação dos sonhos e Conferências introdutórias à psicanálise - à luz do impasse que.foi descrito. Apesar de possuírem estruturas, propósitos e objetos distintos, são fontes ricas para.ilustrar a continuidade e a interação entre matéria e modo de exposição e situar a questão do.estilo em termos diferentes. Sonho e histeria são, nos dois primeiros casos, objetos de estudo.que incidem sobre a forma e modelam a investigação que buscam apreendê-los. Nas.Conferências o percurso se inverte, com a forma da exposição (a apresentação para uma platéia).modelando a matéria abordada: na relação de Freud com seu público entram em jogo os.conteúdos elementares da psicanálise, e o objeto de investigação incide sobre a forma. Em.nenhum destes casos se pode compreender o material apenas como objeto que se aparta da.reflexão a seu respeito ou separar a função teórica do valor da composição. Nosso esforço.talvez possa ser definido como uma generalização da suspeita clínica levantada por Freud em.uma de suas últimas Conferências introdutórias. Ele confessa aos ouvintes que.no próprio material muitas vezes existe algo pelo qual se é comandado e desviado das.suas primeiras intenções. Mesmo uma tarefa tão banal como ordenar um material bem.conhecido não se submete inteiramente ao arbítrio do autor. Ela caminha como lhe.convém e só depois se pode indagar por que as coisas tomaram este aspecto e não um.outro2..Tentaremos traçar os caminhos que reconduzem da ordenação do material ao próprio.material nestes três textos.
