- Autor
- Aimberê Quintiliano
- Revista
- Revista Ética e Filosofia Política
- Edição
- 2 / 28
- Ano
- 2025
- Idioma
- pt
Falar de liberdade de expressão e democracia em Bergson pode parecer uma empreitada arriscada, visto que o autor não abordou diretamente o assunto, nos moldes políticos modernos, enquanto um direito associado a uma forma de governo. No entanto, sua obra nos fornece múltiplas ocasiões de pensar sobre essas questões. Em As Duas Fontes da Moral e da Religião (1932), Bergson opera uma distinção entre sociedade fechada e sociedade aberta. Quando a primeira é caracterizada por regras fixas e motivada pelo instinto de conservação, a segunda se vê ligada a uma moral que inclui toda a humanidade e têm por condição e princípio um amor universal. Ela se apresenta como uma organização social que permite a liberdade e acolhe a individualidade. Na sociedade aberta temos a possibilidade de uma democracia viva, que se cria em permanência, impulsionada pelos indivíduos que agem a partir de sua interioridade, de forma livre, expressando a sua identidade. Segundo Stull (2022), a democracia seria para Bergson um “acontecimento”, uma emergência das virtualidades éticas e políticas que não se manifestam em outros sistemas políticos. A própria democracia, de modo condizente com a ontologia bergsoniana, seria um processo criador, associado à liberdade, enquanto expressão do moi profond. A liberdade é, com efeito, pensada por Bergson como a expressão interior da vida em sua plenitude. No Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência (1889), a liberdade é apresentada como o ato do eu profundo, que se dá na duração. Essa liberdade, diz Sinclair (2021) é expressiva, assim como a criação de uma obra de arte, que manifesta a interioridade do sujeito. Nagase sugere que a liberdade, ao mesmo tempo, implica numa responsabilidade, formando o que Bergson chama, em Matéria e Memória (1896), de “liberdade razoável”. A questão profunda, afirma Pommier (2010), é a encarnação, assim como a nossa relação com o mundo. Somente a intuição pode produzir a harmonia entre a ação e a vida interior. A democracia visa permitir que essa expressão se dê livremente, mas dentro de quadros institucionais. A liberdade é uma força vital, uma expressão da vida, como mostra Bergson na Evolução Criadora (1907). Ela se manifesta em todas as realidades, sejam elas humanas ou naturais. Para o ser humano, a democracia representa o sistema político que permite a criatividade, a liberdade, dentro de um quadro institucional que organiza a vida social de modo a que a liberdade de uns não se torne uma ameaça à liberdade dos outros. É esse complexo problema que pretendemos analisar.
Palvras-chaves: Bergson; Liberdade; Expressão; Vida.
