- Autor
- Miguel Angel de Barrenechea
- Revista
- Lampejo - Revista Eletrônica de Filosofia
- Ano
- 2018
- Idioma
- pt-BR
A proposta deste texto consiste em publicar uma carta aberta a Daniel Lins, relembrando o nosso encontro vital e acadêmico, acontecido há 19 anos, em outubro de 1998, na oportunidade em que eu estava organizando o evento Assim Falou Nietzsche, em Ouro Preto, na UFOP. Daniel me procurou para participar do simpósio, com a proposta de apresentar uma instigante e sugestiva palestra: “A escrita das origens: Artaud e Nietzsche”. Esse ousado e virulento trabalho suscitou muitos afetos, reflexões, ações e reações intensas, causando grande impacto num auditório impávido que, na expectativa de assistir a mais um trabalho acadêmico, encontrou-se com uma escrita radical, provocadora, que incitava a abandonar a conhecida passividade oriunda da maioria dos discursos universitários. Nesse momento, fomos convocados a participar de uma fala – e ainda desafiados a uma escuta – visceral, carnal, transgressora, sob a inspiração não menos virulenta dos dois autores "malditos" invocados: Artaud e Nietzsche. Nesta carta, eu tento dialogar com essas questões virulentas e viscerais provocadas por Daniel com sua escrita corporal, cruel e contundente; com sua escrita “máquina-de-guerra”, principalmente rememorando esse trabalho sobre Artaud e Nietzsche. Também rememoro algumas vicissitudes da nossa amizade que surgiu a partir dessa intensa experiência de pensamento e de afetos. Procuro refletir sobre os numerosos encontros e trocas que se sucederam nesses anos, tentando registrar minhas percepções e pensares nascidos nesses singulares encontros, marcados por um significativo nomadismo que nos levou a dialogar em diversos lugares do Brasil – desde o primeiro encontro em Ouro Preto –, como Rio de Janeiro, Fortaleza, São Paulo, etc. Finalmente, tento realizar um balanço dessa experiência de pensar, a partir das ideias e dos afetos oriundos da filosofia de Daniel Lins; filosofia que, mesmo transitando muitas vezes os caminhos acadêmicos, sempre se afastou das vãs erudições, das miúdas vaidades e preciosismos universitários, mas, ao contrário, sempre cultuou um pensar visceral, radical, carnal, isto é, sempre se manteve fiel à terra, à vida. amizade e dessa singular
