- Autor
- MARCELO ALVES NUNES
- Orientador(a)
- Draiton Gonzaga de Souza
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL — PUC/RS
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2007
O objetivo central desta tese é mostrar que há uma relação entre crença e vontade, entre a teoria do conhecimento e a moral, nos escritos de Descartes. Para tanto, é realizada, primeiramente, uma análise da teoria cartesiana do juízo, que se baseia na interação entre as faculdadades do entendimento e da vontade, a fim de mostrar que Descartes conhecia os problemas dela decorrentes..Tendo em vista que muitos autores atribuíram a Descartes uma versão forte do voluntarismo doxástico, segundo o qual nossas crenças dependeriam de nossa vontade, isto é, de um procedimento decisional, fez-se necessário analisar a concepção cartesiana de liberdade para mostrar que a suspensão geral de juízo proposta pelo cético garante apenas um nível mínimo de autonomia, ao passo que a aplicação do critério de verdade, isto é, a adesão espontânea a idéias claras e distintas, diferentemente, garantiria uma autonomia completa. No entanto, além de possuir tal critério, seria necessária também a “disposição” de empregá-lo. Na verdade, uma análise mais apurada dos textos de Descartes revela que o autor não defendeu o voluntarismo doxástico (a não ser de forma moderada) e sim o voluntarismo da atenção, ou seja, que possuímos um controle indireto sobre nossas crenças. Temos controle voluntário sobre nossas crenças apenas porque podemos direcionar voluntariamente nossa atenção a determinadas evidências e relegar outras evidências a um segundo plano. Porém, esse controle somente indireto sobre nossas crenças parece implicar um tipo de auto-engano..Procura-se mostrar, então, que Descartes tinha consciência do problema do auto-engano. Na Primeira Meditação, por exemplo, diz expressamente que quer enganar-se com argumentos céticos. Inicialmente, Descartes parece endossar a posição cética, adotando a suspensão geral de juízo justamente para garantir nossa autonomia, escapando de qualquer tipo de manipulação ou imposição, inclusive em sua versão mais radical, a saber, a hipótese metafísica de um Deus enganador. Precisamente com a finalidade de garantir sua liberdade diante de qualquer imposição, valendo-se de um tipo de argumentação apresentado por Cícero em Academica – in utramque partem –, alguns interlocutores contemporâneos de Descartes, tais como Montaigne, Charron e Gassendi, defenderam a causa cética.. Posteriormente, é apresentada uma abordagem alternativa às leituras mais comuns da teoria moral de Descartes, distinguindo, para tanto, quatro linhas principais de interpretação da moral cartesiana. Nesse ponto, faz-se necessário assinalar que tais tendências interpretativas são influenciadas por uma concepção deontológica de ética, que é posterior a Descartes. Uma análise dos escritos do autor, porém, conduz à conclusão de que Descartes tinha uma concepção de ética que se ocupava com o modo como devemos viver, isto é, uma concepção moral em termos eudaimonísticos e não deontológicos..Finalmente, procura-se mostrar que, em sua teoria moral, Descartes se comprometeu com uma versão de ética da virtude, concepção que se apresenta como uma alternativa às abordagens deontológicas e utilitaristas feitas à moral cartesiana. Para demonstrar essa teoria, faz-se um exame detalhado das máximas que Descartes apresenta na terceira parte do Discurso. Em seguida, mostra-se, ao contrário de uma visão comumente aceita na escola cartesiana, que Descartes não pretendia que as máximas morais do Discurso fossem substituídas mais tarde por uma teoria moral mais exata e definitiva. A teoria moral em questão representa, na verdade, a visão definitiva de Descartes sobre este assunto. Em suma, procede-se a uma análise da “moral provisória” presente no Discurso do Método, visando mostrar que a teoria do conhecimento de Descartes foi desenvolvida tendo em vista o conceito de “ciência da vida boa” e que, portanto, relaciona-se com a sua teoria moral, ou seja, que há uma estreita relação entre a teoria do conhecimento e a moral cartesiana.
