Descartes e a demonstração da impossibilidade da reprodução mecânica da inteligência
Claudinei Luiz Chitolina
- Autor
- Claudinei Luiz Chitolina
- Orientador(a)
- Arley Ramos Moreno
- Universidade
- UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS — UNICAMP
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2009
O presente estudo é uma análise da obra de Descartes a partir daquilo que ela tem de mais controverso, o problema mente-corpo. O experimento metafísico que conduz Descartes da descoberta do Cogito à descoberta de Deus e do mundo permite ao filósofo derivar três conseqüências fundamentais: a) a mente é de natureza imaterial (res cogitans); b) o corpo é de natureza material (res extensa); c) o homem é o único ser dotado de corpo e alma (um composto substancial). O sujeito cartesiano é de acordo com o procedimento metafísico o fundamento primeiro de todo conhecimento. Ou seja, todo pensamento pressupõe um sujeito que pensa. Assentada sobre fundamentos metafísicos, a física é alçada à condição de ciência. Uma vez estabelecida a diferença de natureza entre mente e corpo, o filósofo afirma que o pensamento é uma propriedade da mente, ou seja, uma prerrogativa humana. Destituído de espírito ou de alma, o mundo físico é concebido como uma grande máquina. Os corpos porque são regidos pelas leis da mecânica são autômatos naturais ou autômatos artificiais (feitos pelo homem). Considerado insolúvel do ponto de vista racional, o problema mente-corpo deixa, porém, de existir na esfera da união substancial. O ser humano é um composto substancial. Porque possui mente, o homem é um ser livre (indeterminado), mas porque é dotado de corpo, o homem é do ponto de vista das funções orgânicas, determinado. Pretende-se identificar na obra cartesiana elementos conceituais e procedimentos argumentativos que tornam possível demonstrar nossa tese: as máquinas não pensam, porque são constituídas apenas de matéria. Segundo Descartes, existe uma evidência empírica que atesta a capacidade de pensamento: a capacidade de falar e de agir. Embora pareçam falar e agir, tanto os animais quanto as máquinas são incapazes de dispor da linguagem e de tomar decisões livres. Falar é diferente de pronunciar palavras. A capacidade de falar implica a capacidade de compor livremente frases e de saber o significado das palavras. Definidas, portanto, como artefatos ou engenhos mecânicos, as máquinas são capazes de realizar operações, mas não de agir. Agir é diferente de operar. Enquanto na operação atua um determinismo causal, na ação está presente uma vontade livre. Se o homem é o único ser capaz de pensamento, é porque é um ser livre, capaz de se autodeterminar. Marco inaugural do pensamento moderno, a obra cartesiana continua a desafiar e a instigar os críticos contemporâneos. É a disputa filosófica e científica em torno da natureza da mente que torna o pensamento cartesiano não só atual, mas insuperável.
