Dialética do Sagrado e do Profano no humanismo integral de Jacques Maritain
ANTONIO SAGRADO BOGAZ
- Autor
- ANTONIO SAGRADO BOGAZ
- Orientador(a)
- FRANKLIN LEOPOLDO E SILVA
- Universidade
- UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO — USP
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2003
A unicidade do ser humano, entendida na plena harmonia de sua sacralidade e de sua profanidade, é um grande desafio para o pensamento humano, seja no universo das ciências humanas, mormente no pensar filosófico e teológico. As correntes filosóficas, ao longo dos séculos, no ocidente e no oriente, assimilaram as diversas culturas, cosmovisões, expressões religiosas e visões sociológicas e antropológicas, para atingir satisfatoriamente a unicidade da pessoa humana, sem detrimento de suas dimensões espirituais e temporais, nas inúmeras expressões culturais, étnicas, místicas e religiosa. Percebemos, apesar dos esforços e das profundas indagações do espírito humano, a presença constante do desequilíbrio destas dimensões, provocando prejudiciais propostas de relação da pessoa consigo mesma, com a comunidade humana, com o universo e com Deus. Com humildade, coragem e sabedoria, J. Maritain, filósofo humanista-cristão assume esta discussão, para buscar a unicidade do ser humano e sua integralidade sagrada e profana, considerando todas as suas dimensões essenciais e existenciais. Com sua grande obra: Humanismo Integral (1936), procura confrontar esta discussão e, partindo da realidade, propõe a interação entre a temporalidade e a espiritualidade do ser humano, como forma de edificar a própria felicidade e o bem social e universal. Nosso trabalho, contando com a orientação magnífica de profundos conhecedores do pensamento maritaniano, refaz a sua trajetória intelectual e espiritual, para atingir as profundezas de seu pensamento. Em círculos circunscritos, partimos da visão filosófica pluralista, que visa superar os humamismos redutivistas, no substrato filosófico da reflexão de J. Maritain. Com estes pressupostos, efetivamos uma visão panorâmica das realidades sócio-históricas e das correntes de pensamento, que circundaram a grande produção filosófico-teológica de J. Maritain. Num círculo de grandes pensadores de seu tempo, com os quais teve relações diretas ou indiretas, procurou lapidar conceitos fundamentais, aproximando as dimensões temporal e espiritual, secular e religiosa, para realizar a interação entre o sagrado e o profano, como base do humanismo integral, que sustenta os princípios fundamentais do novo cristianismo. Na sua obra fundamental, o Humanismo Integral, consegue aprofundar as raízes do novo humanismo, como uma proposta para o cristão atuar de forma fecunda na edificação do Reino de Deus, concretizando a liberdade e a responsabilidade da pessoa, para edificar, na realidade contemporânea, marcada por injustiças, fundamentalismos e ateísmo, a nova cristandade. J. Maritain acredita que o humanismo integral desperta no ser humano a consciência que toda a humanidade embarcou numa mesma aventura coletiva, superando as fronteiras nacionalistas, de religião e do poder político e que a comunidade humana é companheira de viagem, sendo que Deus participa desta sua aventura na direção do infinito transcendental...J. Maritain se opõe ao fundamentalismo religioso que confunde o profano e o sagrado e se opõe igualmente ao um secularismo que desconhece a realidade e o sentido do sagrado. O qualitativo integral que ele acrescenta ao humanismo visa precisamente realizar esta harmonia entre os planos da criação, incluindo a valorização do profano, e os desígnios da salvação, que correspondem em profundidade à mensagem mais profunda do Evangelho. Na mensagem evangélica, fundamentada pela humanidade e divindade de Jesus Cristo, a dimensão da profanidade e da sacralidade se interam numa única realidade, que integram a plenitude do ser humano.
