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Distração e choque: a experiência da arquitetura na vida cotidiana

RITA DE CÁSSIA LUCENA VELLOSO

Tese
Autor
RITA DE CÁSSIA LUCENA VELLOSO
Orientador(a)
VIRGINIA DE ARAUJO FIGUEIREDO
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS — UFMG
Programa
FILOSOFIA
Grau
DOUTORADO
Ano
2007
2007RITA DE CÁSSIA LUCENA VELLOSO. Distração e choque: a experiência da arquitetura na vida cotidiana. 2007. Tese (DOUTORADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, MG. Orientador(a): VIRGINIA DE ARAUJO FIGUEIREDO.2

O principal argumento do trabalho faz uma exploração em torno da experiência causada por um objeto arquitetônico, assumindo como premissa que o campo a ser investigado é o da sua experimentação na vida cotidiana. Tendo em vista a natureza do objeto arquitetônico, a ação concernente ao sujeito que o habita é o uso, não no sentido exclusivo do emprego de um meio disponível para satisfação da necessidade primária do abrigo ou no sentido do mero consumo, mas sim uso enquanto ação que equivale a participação. Investigo a natureza de tal participação, entendendo que é ação que não se resume na contemplação, e, entretanto, contém alguns aspectos da mesma; que é participação no objeto, uma vez que sua utilização exige compreendê-lo de modo profundo e continuado; e, finalmente, que é participação no sentido de uma práxis política, pois é ação desempenhada no espaço público, ação que reverbera nas relações sociais. A hipótese que sustenta o trabalho foi pesquisada na obra filosófica de três autores - Walter Benjamin, Henri Lefebvre e a Internacional Situacionista – a partir da investigação, em primeiro lugar, da elaboração conceitual realizada por cada um deles sobre a arquitetura, a cidade e o urbanismo; em segundo lugar, do exame do conceito de experiência presente em suas filosofias. Para caracterizar essa interseção entre arquitetura e experiência a tese refaz a argumentação sobre a crítica da vida cotidiana buscando as fontes e a formulação do conceito, tal como se apresentou no século XX. Argumento nítido nas filosofias da Internacional Situacionista e Henri Lefebvre, no texto benjaminiano o tema do cotidiano tem proporção significativa, mas é um argumento cujo teor exige ser extraído. No Trabalho das Passagens Walter Benjamin interpreta a grande cidade através das vidas individual e coletiva que ali se realizam. Para esse autor, que assume a polissemia do termo cidade, o imaginário urbano, os fluxos, o paradigma da mobilidade e da circulação, a industrialização e o crescimento populacional, são importantes balizas na demarcação de um conceito de modernidade. Benjamin é um pensador do mundo empírico, ao qual examina rigorosamente, a partir do que chama “elementos minúsculos.” No centro de seu pensamento está o conceito de experiência tomada em sentido amplo, isto é, a conjugação de vida espiritual e experiência cotidiana. Por isso o vemos debruçar-se, sem, contudo, conferir-lhes os termos com os quais os denominamos hoje, sobre questões de representação social do espaço, práticas espaciais, e formas dominantes de sociabilidade urbana. Henri Lefebvre e a Internacional Situacionista completaram a moldura do trabalho, pois há, em seu pensamento, um encontro de duas correntes filosóficas, a fenomenologia e o materialismo, que busco aplicar na estruturação do meu próprio texto. No cursoda pesquisa compreendi que esse cruzamento conceitual também auxilia a compreensão da filosofia benjaminiana no que diz respeito à arquitetura urbana. Objeto de reflexão dos três autores, a cidade é tomada como elemento crucial na crítica do capitalismo, mais especificamente na crítica do fetichismo da mercadoria. Exponho os termos da experiência estética que se apresenta na filosofia de Walter Benjamin, para demonstrar que, a partir das atitudes estéticas de distração e choque, configura-se neste autor um conceito de experiência em que a arquitetura age como solo, do qual nascem elementos essenciais à existência moderna. A partir da argumentação do filósofo é possível dar forma ao sujeito que, vivendo na metrópole, desempenha ali uma experiência estética atravessada por profundas transformações físicas e temporais. Se Benjamin situa na cidade as premissas da experiência moderna, é necessário articular a análise da arquitetura urbana em termos de sua escala de relações e modos de sua produção. Finalmente,estudo os textos de Henri Lefebvre, Guy Debord e Raoul Vaneigem concernentes à experiência da arquitetura, para, assumindo as conclusões alcançadas a partir dos argumentos de Benjamin, avançar e estabelecer o conceito de apropriação como ação cujo fundamento está posto por uma dialética do espaço entendida como dialética do cotidiano. Uma abordagem hermenêutica predomina na construção do trabalho, por meio do comentário interpretativo do tema da vida cotidiana em sua correlação com a recepção estética e também na aplicação, em termos hermenêuticos, da idéia de uma história materialista tal como defendida por Benjamin, na montagem do problema que relaciona a tipologia arquitetônica ao seu uso. Com relação aos lugares da cidade, o princípio da análise foi dado por uma compreensão da dimensão social da história urbana, com o objetivo de compreender a experiência social da população urbana ordinária, os modos de morar de pessoas comuns, aquelas que vivem em lugares adensados e em processos contínuos de transformação estrutural. Assim, os pontos de partida e as categorias que o trabalho pressupõe e formula tem por meta estabelecer que, se é possível entender a experiência como a capacidade de compreender o mundo em que se vive, a arquitetura urbana é um dos fundamentos na textura geral dessa experiência. No modo como enfocam o problema, os autores aqui discutidos situam na crítica do cotidiano a possibilidade de combater a alienação espacial, superando a fantasmagoria e o espetáculo vigentes na vida contemporânea, obrigatoriamente expressos em sua arquitetura.