
A Subcomissão de Estratigrafia Quaternária da União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS) concluiu recentemente que ainda não podemos afirmar que vivemos no Antropoceno. Essa decisão técnica teve como fundamento o fato de não haver um evento geológico de referência que marque a mudança do atual período geológico, o holoceno, para o antropoceno, embora alguns cientistas, como o próprio presidente da SQS Jan Zalasiewicz, sustentem que o Lago Crawford, no Canadá, que apresenta marcações de eventos antropogênicos, como experimentos atômicos, poderia sustentar a nova tese geológica. Apesar da rejeição da oficialização do antropoceno como novo período geológico, isso não significa que o impacto das ações humanas sobre o planeta seja algo que se possa ignorar. As mudanças climáticas e as catástrofes decorrentes de seus efeitos são reais, independentemente da mudança na nomenclatura de nossa época geológica.Na última década, o Brasil passou por eventos extremos de secas, como a que atingiu a região amazônica em 2023, e de chuvas, como os desastres que ocorreram em Petrópolis (RJ) em 2022 e em 2023. Neste momento, é o Rio Grande do Sul que sofre com o maior desastre socioambiental de sua história devido às chuvas extremas que atingiram o estado no início de maio de 2024. De acordo com o cientista do clima Carlos Nobre, não há registros sobre tamanho volume de chuva em tão curto período na região. Em menos de 15 dias choveu mais que 800 milímetros em 60% do território do estado, o que equivale ao acumulado médio de 5 meses. Esses eventos extremos, de acordo com os cientistas, possuem relação direta com o aquecimento do planeta causado pela emissão de CO2 na atmosfera.A urgência da questão ambiental transforma a ideia de antropoceno em ferramenta necessária ao pensamento para enfrentar os desafios políticos e existenciais do tempo das catástrofes, como diria Isabelle Stengers. Os artigos aqui reunidos refletem sobre essa urgência, a mais grave do nosso tempo. Editora: Michelle Bobsin Duarte
Revista Enunciação - Dossiê Antropoceno, v. 9 n. 1 (2024)
Antropofagia, tempo e dívida
Ana Paula Gorni Bittencourt · Revista Enunciação
A problemática do sentido e do sujeito no campo transcendental sem sujeito em Gilles Deleuze
Messias Nunes Correia, Ana Célia Torres Ibiapina · Revista Enunciação
A neutralização do valor da natureza: niilismo e destruição ambiental
Michelle Bobsin Duarte · Revista Enunciação
Evolução e extinção: Darwin no Antropoceno
Marco Antonio Valentim · Revista Enunciação
Resistência e comunidade no tempo das catástrofes
Gabriel Cunha Hickmann · Revista Enunciação
O Antropoceno e uma nova forma de pensar e fazer ciência
Carlos Henrique Machado · Revista Enunciação
A convivialidade como uma ontologia de conectividade na educação no Antropoceno
Maurício Cavalcante Rios · Revista Enunciação
Mundo-sem-nós e Nós-sem-mundo: O paradoxo dos zumbis
Stefany Stettler · Revista Enunciação
A retidão do diálogo: sobre a importância de Martin Buber na fundamentação da ética de Emmanuel Levinas como filosofia primeira
Deodato Libanio · Revista Enunciação
Repensando Natureza e Cultura: diálogos entre biologia e antropologia no pensamento de Tim Ingold
Bruno Feltrin Puttini · Revista Enunciação
