Elementos para a formulação de uma psicossomática psicanalítica
Georgina Carolina de Oliveira Faneco Maniakas
- Autor
- Georgina Carolina de Oliveira Faneco Maniakas
- Orientador(a)
- Luiz Roberto Monzani
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS — UFSCAR
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2008
A partir da articulação entre as obras de Freud, Ferenczi e Groddeck, este trabalho procura.mostrar que, desde os seus primeiros desenvolvimentos, a psicanálise oferece elementos para.a formulação de uma psicossomática psicanalítica. No primeiro capítulo, ao abordarmos.conceitos psicanalíticos que se constituíram na intersecção entre o psíquico e o somático,.apresentamos elementos que permitem supor que as alterações somáticas que atingem.funções e/ou estruturas do corpo são produzidas quando, sob impacto de uma situação.traumática, somado à insuficiência da ação específica, o afeto se descarregar de modo.totalmente inconsciente, veiculando uma excitação acumulada que não encontrou outra.possibilidade de expressão. Tal via de descarga, que tem como base o ato, e não a palavra.pode ser evocada a partir da filogênese quando a ontogênese falha em equipar o indivíduo.com reações mais condizentes ao enfrentamento de situações-limite da realidade. Impedida de.se atualizar contra o objeto, a agressividade natural, inerente aos instintos de conservação da.espécie, atua no sentido de desorganizar o funcionamento psíquico, ou, se este estiver.suficientemente protegido pela clivagem do ego, desestruturar o funcionamento somático..Nessa marcha regressiva para além dos limites psíquicos, a auto-destrutividade, resquício do.masoquismo original, expressa uma força ainda mais fundamental na constituição do vivo,.como procuramos mostrar no segundo capítulo. Identificada por Freud tanto no nível psíquico.como no nível somático, a pulsão de morte estende as raízes do inconsciente ao registro.biológico, e permite considerar a existência de uma região indiferenciada entre soma e psique,.onde as variações de um registro repercutem sobre o outro. Essa hipótese é corroborada: (1).por Ferenczi, que ao empreender modificações na técnica analítica com o objetivo de.promover uma regressão capaz de acessar conteúdos derivados de experiências traumáticas,.acessa conteúdos arcaicos e indiferenciados, que se mantêm imobilizados no corpo como.lembranças sem palavras, à margem da linguagem e do desenvolvimento posterior do ego,.produzindo sofrimentos somato-psíquicos; (2) pela localização do Isso no extremo do.aparelho, em conexão direta com as forças somáticas. Ao rastrearmos a origem do Isso até o.pensamento de Groddeck, no terceiro capítulo, encontramos um Isso-inconsciente precedendo.toda a existência psicossomática. Para Groddeck, a falta de significação simbólica das.doenças orgânicas deve-se à cisão entre soma e psique inerente ao próprio modelo.explicativo, para o qual a doença e os órgãos doentes não são vistos como símbolos que.podem ser decodificados e redimensionados a partir da natureza simbólica do próprio.inconsciente. Para finalizar, procuramos mostrar que, apesar da obra de Freud fornecer.elementos para a explicação do fenômeno psicossomático na perspectiva psicanalítica, é.Groddeck e Ferenczi que fornecem os elementos clínico-conceituais que permitem resgatar o.fenômeno psicossomático de se tornar sinônimo de ausência de simbolização. Apesar de.Freud ter se mantido afastado dessa temática, e cético em relação à resolução da doença.somática pela via analítica, algumas de suas afirmações em seus últimos anos indicam que o.criador da metapsicologia não se manteve totalmente alheio a essa possibilidade.
