Entre o popular e o erudito: samba, negritude e multiplicidade como ensejos de uma Música Popular Brasileira
Wesley Barbosa
- Autor
- Wesley Barbosa
- Revista
- Aufklärung: journal of philosophy
- Edição
- 12 / 3
- Ano
- 2025
- DOI
- 10.18012/arf.v12i3.72258
- Páginas
- p.181-210
- Idioma
- pt
O objetivo do artigo é mostrar como o desenvolvimento da música brasileira encontra-se no âmbito de uma multiplicidade, o que sugere formas de constituição filosóficas não dualistas. Há uma tentativa de cisão entre o popular e o erudito, alguns atribuindo ao primeiro uma simplicidade como sinônimo de alienação e ao segundo uma sofisticação como idêntico ao superior. A questão é que a música brasileira teve outros encaminhamentos, pela forte influência dos Sons dos Negros, obra de José Ramos Tinhorão. Musicalidade esta, fortemente vinculada a cerimonialística litúrgica das tradições das religiões de matriz africana. Nestas religiões, o sagrado e o profano, não devidamente separados em polos antagônicos. Elementos musicais e corporais incorporaram-se às tradições culturais do país quando o sagrado sofreu um certo distanciamento do profano. Mas mesmo quando o lundu e a umbigada, sob influência de um outro traço, as cerimônias de alembamento, comuns na cultura angolana, efetivaram-se como completamente apartados das religiões de terreiro, a sacralidade dos orixás e voduns ainda permaneceu como santuário imaterial da história de resistência dos povos negros no Brasil. Comentaremos também sobre a perseguição a estas manifestações culturais. E, ao fim, analisaremos alguns sambas de enredo do carnaval do Rio, a título de demonstração de sua complexidade, heterogeneidade e sofisticação: o popular, em hipótese alguma, reduzido em relação ao erudito. Aliás, os dois, como exemplos categóricos, da capacidade criativa humana de transformar o banal no extraordinário, pela potência intempestiva da obra de arte.
