- Autor
- Tania Aparecida Kuhnen
- Revista
- PENSANDO - REVISTA DE FILOSOFIA
- Edição
- 17 / 40
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.26694/pensando.vol17i40.8487
- Páginas
- 107-130
- Idioma
- pt
Este artigo examina o problema do antropocentrismo nas teorias éticas tradicionais e a possibilidade de defender a expansão da comunidade moral. Parte-se da questão de como superar o quadro da sacralidade da vida humana, que coloca humanos no centro da moralidade, à luz de abordagens contemporâneas, tendo como objetivo demonstrar que a ética do cuidado de orientação feminista, incorporada pelos ecofeminismos, oferece uma base promissora para a expansão da comunidade moral por meio de uma virada relacional interespécies. A argumentação está estruturada em três momentos: inicialmente, caracteriza-se a ética do cuidado feminista como uma perspectiva relacional e contextual, centrada nas relações de inter/dependência e na obrigação de responder às necessidades concretas e singulares de cuidado; em seguida, analisa-se como autoras ecofeministas mobilizam essa abordagem para criticar dualismos hierárquicos de valor atrelados a sistemas de dominação, responsáveis pela exploração de seres humanos e não humanos, e ampliar a consideração moral para além dos seres humanos; por fim, explora-se as implicações da virada relacional interespécies para a ética animal e ambiental, com destaque para a superação simultânea de diferentes sistemas de dominação. Conclui-se que a ética do cuidado permite deslocar a moralidade de uma lógica de dominação para uma lógica do cuidado, promovendo uma compreensão sobre a continuidade entre as formas de vida por meio de um self relacional e fundamentando práticas de cuidado voltadas à prevenção do sofrimento e à sustentação de redes de cuidado. Apesar dos desafios associados à diversidade de contextos e necessidades de cuidado em diferentes seres vivos e espécies, sustenta-se que a formação de selves relacionais constitui um caminho central para a construção de uma sociedade baseada no cuidado interespécies.
