- Autor
- RUBENS GARCIA NUNES SOBRINHO
- Orientador(a)
- MARCELO PIMENTA MARQUES
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS — UFMG
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2011
A partir do emprego do estruturalismo alemão de Walter Burkert, pretendo destacar nesta investigação as relações estruturais entre as imagens do mito de julgamento do Górgias e aplicá-las a um passo do mito de Er da República. Segundo Burkert (2001b), mito é um programa, ou sequência de ações com uma estrutura discernível definida, que se caracteriza pela exemplaridade do tipo mítico e pela aplicabilidade atemporal. Aprofundando a definição burkertiana de mito, proponho que as ações implicam imagens psíquicas imbuídas de afetos - vergonha, audácia e ardor são os afetos eróticos mediante que a dialética socrática choca-se, ingente, com a retórica daquele que viria a ser, ao mesmo tempo, o mais violento e o mais brilhante dos interlocutores que travam combate com Sócrates, Cálicles. Devo esclarecer que toda a interpretação elaborada neste artigo parte do pressuposto de que o mito é pensar por imagens e que imagens mentais precedem a linguagem. No mito de Prometeu, a linguagem é posterior ao fogo técnico, que consolida o sacrifício como o rito adequado para a interação entre as instâncias divina e humana e a emergência ritualística dos esquemas mentais que compõem a inteligência causal organizada da experiência e da multiplicidade: a conexão infalível entre dois eventos consecutivos no tempo, a deliberação projetiva inteligente, a escolha de meios eficazes com vistas a um fim útil determinado. Por extensão, pode-se dizer que os ritos são anteriores à linguagem e que imagens e ritos, não a linguagem, são os fundamentos do pensar. Por fim, um olhar ao termo parrhesia que inicialmente eparece como a fala aberta que revela o pensamento e as verdadeiras crenças do proferidor, no Górgias, é mencionado na ambiguidade irônica com que Sócrates alude ao livre curso dos apetites de Cálicles (que engendram a violência do seu lógos) e à qualidade psíquica pela qual a investigação dialética pode chegar a bom termo. A franqueza (parrhesis) é a garantia pela qual interlocutor assente a uma tese expressa e também um indicativo de que uma certa ordenação psíquica transpõe seu movimento próprio para o lógos. O discurso sem peias reproduz de modo direto a trama que entretece os afetos neste princípio de movimento e inteligência que a psykhé.
