Lógica e forma de vida: Wittgenstein e a natureza da necessidade lógica e da filosofia
Alexandre Noronha Machado
- Autor
- Alexandre Noronha Machado
- Orientador(a)
- Paulo Francisco Estrella Faria
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL — UFRGS
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2004
O presente trabalho tem uma dupla natureza: exegética e temática. Ele procura apresentar uma interpretação e defender as reflexões de Wittgenstein sobre a natureza da necessidade e da filosofia contra algumas objeções. O texto está dividido em duas partes. Na primeira são expostas as reflexões do jovem Wittgenstein sobre a natureza da lógica contidas principalmente no seu Tractatus Logico-Philosophicus. Procuro mostrar que (a despeito dos revisionistas, principalmente C. Diamond e J. Conant) a interpretação tradicional está em geral correta ao sustentar que a concepção da natureza da lógica do Tractatus estava baseada numa metafísica inefável sobre a substância do mundo e a sobre as operações do sujeito que representa o mundo. Procuro expor as razões que levaram Wittgenstein a abandonar, pouco a pouco, algumas das principais teses da filosofia da lógica do Tractatus, em meio a manutenção da aprioridade e necessidade da lógica. Essa manutenção, entretanto, deu-se à custa de rever a sua concepção da natureza do a priori e da necessidade. Nessa revisão, o principal alvo de ataque é a tese da independência do sentido em relação à verdade, um dos pilares centrais do Tractatus. Apresento razões para sustentar que essa tese implica que a investigação filosófica deve ser feita de um ponto de vista absoluto, o ponto de vista do realismo. A filosofia tardia de Wittgenstein pode ser vista como um grande esforço para mostrar as pressuposições factuais da linguagem. Procuro mostrar que as reflexões de Wittgenstein sobre seguir uma regra implicam que a distinção entre verdade e reconhecimento da verdade não pode ser, como pensa o realista, absoluta, o que, entretanto, não o torna um idealista. Parte dessas reflexões são suas críticas à a concepção agostiniana de significação e significado, da qual fazem parte, por sua vez, suas reflexões sobre o problema da linguagem privada. Defendo que as reflexões de Wittgenstein sobre seguir uma regra visam criticar a noção de determinação absoluta que está na base do que ele chamou de concepção de lógica como algo sublime. Procuro mostrar que parte da resistência com relação às reflexões de Wittgenstein consiste na resistência a se abordar os problemas filosóficos da perspectiva que Wittgenstein os apresenta. Ele presente apresentá-los de um ponto de vista sub specie humanitatis, isto é, de um ponto de vista imerso em pressuposições factuais e normativas. Fazer o contrário implica tentar reduzir (explicar) a normatividade da linguagem a algo não normativo, tentar usar a linguagem para sair fora da linguagem.
