Poética e estética em Rousseau: corrupção do gosto, degeneração e mimesis das paixões
Luciano da Silva Façanha
- Autor
- Luciano da Silva Façanha
- Orientador(a)
- Maria Constança Peres Pissarra
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO — PUC/SP
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2010
Rousseau foi um filósofo que praticou uma variedade de gêneros possíveis; segundo o próprio, todos objetivando atingir os mesmos princípios, apenas mudando o tom e variando na escrita, passando por obras de política, romance de formação, peças musical e teatral, contos, romance de amor, além de seus intensos monólogos e uma vasta prática epistolar que, juntamente com os textos de apologética, compõe o gênero da memória. Aliás, característica exercitada por Rousseau com exímia proeza, pois, no século XVIII, os filósofos, com quase nenhuma exceção, exercem uma multiplicidade de gêneros literários, ocasionando a valorização da Literatura, do paradigma da arte em geral, em que a filosofia reconheceu a autonomia em todo discurso artístico. Ressaltando-se que há uma inexistência de fronteiras precisas entre a Literatura e a Filosofia, daí a diversidade de gêneros praticados pelos homens de letras do período da ilustração. Contudo, Rousseau informa que, quando o gosto ainda não havia se corrompido, nem as paixões degeneraram, e, ‘antes que a arte polisse nossas maneiras e ensinasse nossas paixões a falarem a linguagem apurada desses diversos gêneros, nossos costumes eram rústicos, mas naturais, e a diferença dos procedimentos denunciava, à primeira vista, a dos caracteres.’ Assim, a partir de conjecturas toleráveis a respeito do nascimento dessa “arte sublime” de comunicar os pensamentos, o filósofo remete a questão à origem das línguas, que, mesmo estando a uma distância tão longe de sua perfeição estética, pois, natural, as paixões com que eram expressadas constituíam a mais direta manifestação do homem e, de forma correlata, as inflexões emocionais importavam mais do que a significação racional das palavras, afinal, foram os sentimentos que arrancaram as primeiras vozes, daí a natureza poética da linguagem em que a língua original se assemelhava a que os Poetas utilizavam, onde havia o privilégio da eloquência ao invés da exatidão; a linguagem dos primeiros homens era de uma forma “Figurada e Poética”, pois, não começou por raciocinar, mas, por Sentir; e, embora o filósofo tivesse consciência que uma língua, jamais poderia representar por completo os sentimentos que suscitam as paixões, pois, não podem ser ditas com a mesma intensidade com que são sentidas, nem recuperar inteiramente a pureza e a leveza das expressões eloquentes, no entanto, o filósofo parece apontar uma saída: reconduzi-las “ao bom caminho”, pois, Rousseau acaba realizando a tarefa, da linguagem poética em sua plena estética, seja transmitida sob a forma do romance, de um ensinamento, um tratado político, uma peça, seja agindo mais misteriosamente por meio de um exemplo de si mesmo, de certa forma contagiante, seja intervindo na vida ao revelar seus recônditos mais ermos; são os melhores meios encontrados para ‘fazer falar as paixões’, e as maneiras mais eficazes para a mimesis das paixões, como a escrita, que parece bem representar a Estética rousseauniana, ao reproduzir a mais “perfeita imagem original”, sendo esse meio que torna possível o futuro retorno à imediação, como nos primórdios, em que a linguagem era mais poética e livre, pois, mais próxima das paixões, logo, mais original e mais verdadeira
