- Revista
- Cadernos de História e Filosofia da Ciência
- Edição
- 1
- Ano
- 2018
- Idioma
- pt
Traduzir e comentar hoje um texto apócrifo do século XVI sobre o método na astronomia poderia parecer um mero capricho de erudição. Por que a filosofia da ciência não investigaria diretamente os problemas metodológicos atuais, com os instrumentos lógico-matemáticos disponiveis, deixando para os historiadores e os curiosos o passado quase esquecido da metodologa? É simples: estão em crise o indutivismo de Carnap e o falsificacionismo de Popper - os dois programas de pesquisa metodológica baseados em instrumentos analíticos, que até pouco tempo praticamente monopolizavam a produção filosófica significante no setor. Com efeito, nenhum dos dois parece levar à solução satisfatória do problema que consideram básico: achar um método geral para justificar racionalmente a aceitação de enunciados das ciéncias empíricas, seja a título de prováveis (Carnap), seja a título de verossímeis (último Popper). Diante desse insucesso (particularmente grave para aqueles que, como Popper, identificam o problema da racionalidade científica com o da justificação), ressurgem, com força redobrada, duas outras diculdades dos programas tradicionais, anteriormente minimizadas: os métodos de aceitação neles produzidos nem descrevem adequadamente os que são de fato usados pelos cientistas nem dão conta do progresso da ciência.
