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Relação cérebro-linguagem humana em co-evolução

Adalberto Tripicchio

Tese
Autor
Adalberto Tripicchio
Orientador(a)
João de Fernandes Teixeira
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS — UFSCAR
Programa
FILOSOFIA
Grau
DOUTORADO
Ano
2004
2004Adalberto Tripicchio. Relação cérebro-linguagem humana em co-evolução. 2004. Tese (DOUTORADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, SP. Orientador(a): João de Fernandes Teixeira.1

O termo zoológico Homo sapiens implica que o homem se caracteriza na série animal pelo pensamento, pela reflexão, pelo poder de ideação e abstração. Entretanto, por mais complexo que seja, este pensamento humano aparece, aos olhos da psicologia animal, apenas como o desdobramento evolutivo do que já existia em germe nas espécies inferiores. .Apenas, franqueando o escalão humano, a complexidade atingiu um nível crítico de saturação, em que as qualidades novas, emergindo do aumento quantitativo, introduzem tais mudanças e tais possibilidades, que se torna legítimo falar, então, de uma diferenciação de natureza qualitativa. .Ante a expressão inteligente e compreensiva de um cão ou de um chimpanzé bonobo, tem-se a tentação de dizer que não lhes falta senão a palavra para exprimir seu pensamento. Esta observação introduz-nos ao âmago do problema fundamental para quem quer compreender a peculiaridade do pensamento humano: somente o homem é suscetível de uma verdadeira linguagem que lhe permite comunicar seu pensamento com os semelhantes. .Mas se a linguagem é sem dúvida, na sua própria origem, um meio de comunicação particularmente necessário em uma espécie social para o trabalho em comum, é preciso ter cuidado para não separá-la em demasia do pensamento, de não transformá-la em mero instrumento a serviço da personalidade humana, instrumento cuja ausência no animal superior quando muito impediria a comunicação de seu pensamento análogo ao nosso. .No homem, a linguagem funciona ao mesmo tempo como linguagem exterior, permitindo-nos comunicar, e como linguagem interior, capaz de assegurar o nosso pensamento, nossa consciência reflexiva. O pensamento animal, se existir, será de modo diferente do nosso, bem como seu grau de presença no mundo, isto é, de autoconsciência, será distinto, porque seu psiquismo não é verbalizado nem verbalizável. O homem desprovido de linguagem, ou cuja linguagem é rudimentar, não é apenas constrangido em suas relações com outrem, mas é limitado no próprio plano subjetivo de seu pensamento, quer se trate do primitivo, da criança, do surdo-mudo não reeducado pela palavra, dos deficientes, e de casos patológicos como os psicóticos e certos afásicos. .Na origem da humanidade, como na do indivíduo, o humano é pura virtualidade e reside, sobretudo, na possibilidade de adquirir, um dia, uma linguagem, lenta invenção coletiva no decurso dos milênios no primeiro caso, e de aprendizado da linguagem do seu grupo, vetor das influências culturais, no outro. .Entretanto, não é a linguagem que preside à origem do homem, mas esta novidade biológica que consiste no seu """"cérebro maior em tamanho e complexidade interna"""", cujas possibilidades funcionais permitem a linguagem, irrealizável pelos cérebros animais demasiadamente pobres em neurônios e sinapses. Há uma idade em que o cérebro amadurece para a linguagem e quando a criança aprende a falar; é neste momento, nas chamadas """"janelas de oportunidade"""", que ela se humaniza verdadeiramente, como o demonstra o estudo comparativo dos macacos e das crianças. .Esta humanização aparece como um processo social, uma tomada de contato com o outro, uma inserção na sociedade: pensamos, e somos nós mesmos, porque recebemos quando crianças, em dado tempo, da sociedade, os meios de pensar e de afirmar nosso eu. .O pensamento humano é um processo cultural; do fato de uma sociedade poder ser opressiva e impedir o desenvolvimento dos indivíduos não se deve concluir que possa o homem fazer-se sozinho; sem contato social, ele permaneceria próximo do animal, com um pensamento e uma consciência rudimentares. .É necessário conceituarmos com clareza o grau de parentesco entre pensamento e linguagem. Seriam eles simbiontes, ou independentes entre si? Ou, haveria uma interdependência, não obrigatória, de benefícios mútuos? Assim, para quem quer compreender e situar o homem importa inclinar-se sobre a linguagem, esta instância humana que nos assegura a possibilidade de um desenvolvimento inimaginável, e que, no seu grau superior cria a ciência. .Vários trabalhos já contemplaram a linguagem, por exemplo, no seu aspecto lingüístico ou sobre o plano anátomo-funcional da laringe; trataremos aqui da linguagem, explicando os mecanismos cerebrais que a asseguram, mostrando como um comportamento exterior chega a assumir e a transformar todo psiquismo. Apoiando-nos em dados oferecidos pela paleo-arqueo-antropologia, focalizamos o caminho evolutivo-adaptativo percorrido pelos primatas, desde os macacos antropóides, seguidos pelos hominóides, e chegando aos hominídeos, até à espécie sapiens, culminando com as transformações emergentes da neuro-morfofisiologia humana e do seu sistema da fala. .Em seguida, realizamos uma revisão histórica da questão biofilosófica da linguagem. Depois, adentramos à interface da linguagem com as neurociências, baseando-nos em resultados de estudos da psicologia animal e da etologia cognitiva em relação aos meios de comunicação mais conspícuos do reino não-humano, estabelecendo as possibilidades e os limites da linguagem animal. .Situaremos explicitamente nossa posição na questão do problema da relação cérebro-mente, incluindo o lugar da linguagem nesta discussão. É a linguagem a mais maravilhosa das invenções humanas: o homem só é sapiens porque é loquens, porque soube aprender a falar. Nada mudou no corpo do homem depois do homem primitivo, mas seu psiquismo não é mais o mesmo: o homem desenvolveu sua inteligência graças à linguagem e a seus aperfeiçoamentos. Nada mais extraordinário do que esse aperfeiçoamento recíproco co-evolutivo da linguagem e do pensamento assegurando no cérebro humano a tomada de consciência do mundo e de si mesmo.