Sobre a verdade e as opiniões: o Poema de Parmênides e a incisão entre ser e devir.
ALEXANDRE DA SILVA COSTA
- Autor
- ALEXANDRE DA SILVA COSTA
- Orientador(a)
- FERNANDO JOSE DE SANTORO MOREIRA
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO — UFRJ
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2010
O ponto de partida desta tese consiste em avaliar o Poema de Parmênides através da clivagem que lhe serve como principal orientação: a absoluta incompatibilidade entre verdade e opiniões. É a partir dela que se torna privilegiadamente possível analisar a obra parmenídica em sua integridade, na medida em que configura o gesto que determina a própria estrutura tripartida do Poema. Essa incompatibilidade que cinde verdade e opiniões de forma irreconciliável depende, no entanto, de uma decisão de pensamento que a sustenta e que lhe é anterior, servindo-lhe como fundamento - a clara e distinta incisão entre ser e devir. Defende-se, deste modo, que o verbo ser aplica-se tão-somente à verdade, assim como o devir caracteriza as opiniões, o que exige a pergunta: ao que se pode aplicar, então, cada um desses verbos em sua restrita propriedade, uma vez imiscíveis? Propondo uma nova semântica e mesmo uma nova gramática para o verbo ser, a verdade parmenídica e o ente de que trata serão aqui compreendidos como um artifício e um exercício de autonomia da linguagem, de uma linguagem, por conseguinte, necessariamente autoreferente; ao passo que a linguagem que se faz como uma fala acerca dos sensíveis, aquela que se propõe a responsabilidade de discorrer acerca do que costumamos nomear """"realidade sensível"""", é necessariamente plural e, portanto, opinativa. Verdade e opiniões não são dois modos distintos de pensar o mesmo, mas modos distintos do pensar: o noético e o frenético, cabendo a cada uma dessas modulações não apenas uma propriedade específica de operar o pensamento e a linguagem, mas também a submissão àquele que que determina o seu gênero e caráter: o motivo pelo que se fazem, respectivamente, verdade e opiniões deve-se justamente àquilo sobre o que versam. Não há verdade sobre o """"mundo"""", posto que este não é, devém; plural e diverso, ele exige da linguagem a diversidade e a pluridade das opiniões. Em contrapartida, só é possível verdade sobre o que não devém. E o que não devém? Seria pouco responder """"o ente"""". O desafio maior do Poema de Parmênides resulta em saber do que se diz quando se diz """"o ente"""". Que seja feita, finalmente, a pergunta: o que é o ente?
