Socilogia da Ciência versus Filosofia da Ciência: O debate acerca do Programa Forte
Leonardo Francisco Schwinden
- Autor
- Leonardo Francisco Schwinden
- Orientador(a)
- Alberto Oscar Cupani
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA — UFSC
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- DOUTORADO
- Ano
- 2010
Pode o conhecimento das ciências naturais e exatas ser determinado por fatores sociais? Barry Barnes e David Bloor asseguram que sim. Argumentam que, mesmo nessas ciências, o conteúdo das teorias não é determinado simplesmente pela relação dos indivíduos com a realidade objetiva, mas, sobretudo, pelas relações entre os indivíduos envolvidos de alguma forma com o conhecimento. Como em qualquer outra atividade humana, dizem eles, a atividade científica atende a interesses, não apenas externos, mas também a interesses externos; e tais interesses precisam ser mais bem detalhadas. O processo de conhecimento envolve complexas e inúmeras negociações entre os cientistas e, o mais importante, elas ficam expressas e determinam o conteúdo do conhecimento, conforme garantem os autores. Porém, o fato de o conteúdo ser assim determinado não tem relação necessária com sua vlidade. A validade é dada pelo contexto. Por isso, a pretensão alimentada pelos filósofos da ciência, de determinar a validade das crenças científicas de uma maneira independente, baseada tão somente em razões, é uma pretensão ilusória; provavelmente ideológica, conforme Bloor. A validade é, no fundo, credibilidade, uma questão altamente social e inevitavelmente relativa. O esclarecimento da credibilidade das teorias científicas requer, segundo Barnes e Bloor, uma postura imparcial, neutra em relação às avaliações e distinções que são próprias dos contextos das crenças estudadas. Requer também coragem para enfrentar a proteção colocada em torno do conhecimento. A caracterização da postura requerida no estudo da credibilidade das crenças é dada pelos quatro princípio apontados por Bloor - causalidade, imparcialidade, simetria e reflexividade - e designados por ele de """"Programa Forte de Sociologia do Conhecimento Científico"""". Como é possível perceber na exposição acima, a proposta feita através do Programa Forte não é uma reivindicação apenas de que a Sociologia participe, junto com a Filosofia, do estudo do conteúdo do conhecimento científico. Mais do que isso, a proposta é que a Sociologia do Conhecimento Científico supera e substitui o do enfoque tradicional da Filosofia da Ciência. A presente tese investiga, portanto, as bases apresentadas por Barnes e Bloor em favor dessa audaciosa proposta. Subsidiando-se nas análise de Larry Laudman, Willian Newton-Smith e James C. Brown, será defendido que: a alegação de que o enfoque filosófico é irremediavelmente incompatível com o enfoque naturalista é uma alegação injustificada. Em parte, é devida ao modo precário e, frequentemente, injusto com que Barnes e Bloor caracterizam o enfoque da Filosofia da Ciência. Será defendido que o enfoque filosófico das razões pode ser ao menos tão científico e empíricamente aberto quanto o enfoque sociológico centrado em interesses. Os autores falham em reconhecer a autonomia de fatores normativos em relação aos aspectos sociais, basicamente, por aderirem entre outras coisas, a uma interpretação bastante duvidoa da tese da subdeterminação e à igualmente controversa doutrina do Finitismo Semântico. Todavia, os graves defeitos identificados na proposta do Programa Forte, não devem impedir a percepção dos motivos para sua colocação, entre eles, a percepção, difundida por autores como Kuhn, de que é preciso dar maior consideração aos aspectos sociais, direta ou indiretamente, envolvidos com o conhecimento científico. De fato, os tempos mostram ter havido ma mudança em favor da atenção àqueles aspectos, inclusive no campo da Filosofia da Ciência. Não se pode deixar de reconhecer que o Programa Forte é uma das contribuições mais importantes para essa nova perspectiva, embora não seja de todo satisfatório filosoficamente.
