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Táxons biológicos: aspectos semânticos e metafísicos

Jerzy André Brzozwski

Tese
Autor
Jerzy André Brzozwski
Orientador(a)
Gustavo Andres Caponi
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA — UFSC
Programa
FILOSOFIA
Grau
DOUTORADO
Ano
2012
2012Jerzy André Brzozwski. Táxons biológicos: aspectos semânticos e metafísicos. 2012. Tese (DOUTORADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA, SC. Orientador(a): Gustavo Andres Caponi.1

Este trabalho pretende responder à pergunta: como é possível que os nomes dos táxons biológicos sejam usados para se referir às entidades a que se referem? Para tanto, começamos, no capítulo 1, pela análise do conceito de linhagem biológica, argumentando que ele deve ser primordialmente entendido no sentido monofilético, isto é, o de que uma linhagem é um grupo formado por um ancestral e todos seus descendentes. Apresentamos então a ideia de que os táxons são, contemporaneamente, concebidos como linhagens e, portanto, seu estatuto ontológico não é o de classes naturais, mas sim o de entidades históricas individuais. Essa tese foi famosamente defendida por Ghiselin e Hull, mas o mais importante para os propósitos deste trabalho é o lugar central que ela ocupa na teoria da sistemática filogenética proposta por Willi Hennig. Comentamos alguns dos aspectos da ontologia que embasa a teoria de Hennig, e, no final do capítulo, levantamos algumas consequências da tese da individualidade. Uma dessas consequências, a ideia de que os nomes dos táxons são próprios, é apresentada por Ghiselin e Hull em associação com a teoria causal da referência, na tentativa de argumentar que os táxons não têm propriedades definitórias (essências). Desse modo, no capítulo 2, analisamos as duas principiais teorias da referência para nomes próprios - descritivista e causal-histórica - e o modo como elas são defendidas por diferentes autores. De acordo com a visão descritivista, a relação entre um nome próprio e seu portador é mediada por um componente epistemológico, em geral entendido como um conjunto de representações (de natureza linguística ou não) do portador. Para a teoria causal-histórica, por outro lado, um nome próprio se refere a seu portador em todos mundos possíveis, ou seja, independentemente do conhecimento que tenhamos das propriedades ou feitos do portador. Há, no entanto, um problema para uma defesa da teoria causal no caso dos nomes dos táxons biológicos. Trata-se do conhecido """"problema qua"""": se não houver a mediação de um critério de identidade para o objeto nomeado, o referente do nome não pode ser identificado de modo inequívoco. Assim, no capítulo 3, defenderemos uma teoria da referência híbrida para os nomes de táxons, segundo a qual há dois elementos que compõem os sentidos desses nomes: critérios de aplicação e critérios de identidade. No sistema nomenclatural lineano, atualmente aceito, os critérios de aplicação são associados aos nomes por efeito dos códigos de nomenclatura. Os critérios de identidade, por outro lado, são contribuídos pelo contexto teórico circundante. Comparamos esse sistema com o PhyloCode, uma proposta recente de sistema nomenclatural na qual os nomes dos táxons seriam definidos filogeneticamente, isto é, em função de sua posição relativa na árvore da vida. Argumentaremos que a rejeição do PhyloCode por parte da comunidade de biólogos se deve ao fato de que esse código transforma critérios de identidade em critérios de aplicação, o que é heuristicamente indesejável para a sistemática filogenética. Entretanto, isso não implica que a ideia de que é possível estabelecer critérios de identidade deva ser rejeitada. Pensamos que a visão mínima de que é possível fornecer critérios de identidade para táxons pode ser apropriadamente chamada de essencialismo sobre táxons biológicos, e nossa defesa dela constitui uma segunda linha de argumentação do capítulo 3. O ponto é que se costuma entender a tese da individualidade das espécies como tendo refutado definitivamente o essencialismo. Entretanto, argumentaremos que essencialismo e antiessencialismo são posições sobre critérios de identidade, e não sobre o estatuto ontológico, das entidades. A tese da individualidade, pensamos, é insuficiente para a refutação do essencialismo. Para tanto, seria necessário defender que é impossível estabelecer critérios de identidade para os táxons. Terminamos com algumas respostas a essa objeção.