A ideologia e a construção do inimigo objetivo: uma leitura da conjuntura política brasileira a partir de categorias arendtianas
Fábio Abreu dos Passos
- Autor
- Fábio Abreu dos Passos
- Revista
- Kalagatos
- Edição
- 23 / 1
- Ano
- 2026
- DOI
- 10.52521/kg.v23i1.16646
- Páginas
- eK26013
- Idioma
- pt
Em Origens do totalitarismo, Hannah Arendt (1906-1975) nos adverte que os governos totalitários são diferentes das tiranias e ditaduras e, assim, esta forma de regime político deve ser tencionada como algo sem precedentes na história. Mesmo diante desse ineditismo, nossa aposta no presente texto é que outras formas de governo de exceção, como tiranias e ditaduras, lançam mão de métodos de dominação utilizados pelo totalitarismo, a exemplo da ideologia. A “natureza” e o modus operandi da ideologia – a lógica de uma ideia – se constituem como eixos de sustentação sobre os quais gravitarão minhas reflexões, as quais terão como fio condutor as contribuições filosóficas políticas de Hannah Arendt. Esses dois eixos de sustentação me possibilitarão lançar luz sobre a tentativa de dissolver as contradições que são inerentes à vida humana, a qual tem como objetivo nuclear o fomento de um mundo fictício, edificado a partir de premissas logicamente aceitas. A construção do mundo fictício impede que a memória armazene o passado tal qual ele ocorreu, transformando o pretérito em um engodo. Na edificação do mundo fictício, a construção da persona do “inimigo objetivo” se constitui como um movimento imprescindível, pois será essa “ideia” que sustentará tanto a ascensão quanto a permanência de regimes de exceção, a exemplo da ditadura civil-militar brasileira, que tomou o poder com a promessa de destruir a ameaça comunista que pairava sobre a sociedade brasileira e seus inquebrantáveis valores: Deus, família e pátria. Ainda, procurarei explicitar de que forma a “ideologia” do perigo comunista constitui-se como fenômeno alicerçador de grade parte das práticas políticas hodiernas em nosso país.
