A RELAÇÃO DE NIETZSCHE E FOUCAULT COM O ASCETISMO: A EDUCAÇÃO DOS AFETOS PARA A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO AUTÔNOMO
ronaldo pelli
- Autor
- ronaldo pelli
- Revista
- Revista Ideação
- Edição
- 1 / 51
- Ano
- 2025
- DOI
- 10.13102/ideac.v1i51.11316
- Páginas
- 209-223
- Idioma
- pt
Em seu livro Genealogia da moral, Friedrich Nietzsche fez críticas ao ideal ascético, associando tal noção ao cristianismo. Seu adversário aqui é o sacerdote ascético, personagem que não precisa pertencer diretamente ao sistema eclesiástico. Cerca de 100 anos depois, Michel Foucault elegeu o tema da askésis, algo como “treinamento espiritual”, para ajudá-lo a pensar o dispositivo da sexualidade em suas obras História da sexualidade, volumes II e III. Após as fases da Arqueologia do saber e da Genealogia do poder, esta é considerada um terceiro momento na produção intelectual de Foucault, chamada de Estética da existência. Ela aparece na década de 1980, logo depois que o pensador francês tinha se debruçado sobre o fortalecimento do credo neoliberal nos países do Atlântico Norte, e mostra histórias em que pensadores gregos e romanos da Antiguidade propõem um cuidado de si para se formarem como sujeitos autônomos, em que não são escravos nem mesmo dos próprios impulsos. O pensamento foucaultiano sobre essa arte de viver poderia ser visto, assim, como uma continuação dos seus estudos sobre o neoliberalismo, tanto quanto poderia também ser encarado como uma resposta às críticas nietzschianas ao ideal ascético. Entretanto, Nietzsche também se importava com a construção de um novo sujeito, de uma nova subjetividade que não obedecesse aos imperativos da moral de origem cristã. Portanto, Nietzsche e Foucault teriam mais similaridades que discordâncias nesse quesito: ambos querem pensar como seria possível a construção desse personagem outro, que não fosse facilmente capturado pelos próprios movimentos da moral em que está inserido nem fosse tão refém dos solavancos dos seus desejos. Este artigo, assim, vai pensar a relação de ambos os pensadores quando o assunto é o ascetismo, encarado aqui como uma espécie de educação dos afetos com o fim de constituir o sujeito autônomo.
