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CONSEQUÊNCIAS TRÁGICAS DO CETICISMO EM OTELO

Rafael Fernandes Mendes dos Santos

Autor
Rafael Fernandes Mendes dos Santos
Revista
Revista Ideação
Edição
1 / 53
Ano
2026
DOI
10.13102/ideac.v1i53.12672
Páginas
272-293
Idioma
pt
2026Rafael Fernandes Mendes dos Santos. CONSEQUÊNCIAS TRÁGICAS DO CETICISMO EM OTELO. Revista Ideação, v. 1, n. 53, p. 272-293, 2026.3

O artigo analisa, à luz da filosofia de Stanley Cavell, como Otelo dramatiza as consequências trágicas do ceticismo moderno. Argumenta-se que a peça encena, no plano das relações humanas, a evasão da responsabilidade pelo significado — isto é, pelo que se diz e se faz — como núcleo de seu desfecho trágico. Em diálogo com Wittgenstein, Cavell sustenta que a busca ilimitável por fundamentos converte a finitude humana em “falta intelectual”, produzindo um desapontamento com a linguagem e obscurecendo a possibilidade de compartilhar situações de mente (plights of mind). Nesse quadro, o problema das outras mentes é deslocado do registro estritamente epistêmico para o do reconhecimento: o trágico não decorre primariamente da ausência de provas, mas da recusa em reconhecer o outro como humano e vulnerável. Em Otelo, a exigência de indubitabilidade articula-se à autoimagem idealizada do protagonista, sustentada pelo espelhamento oferecido por Desdêmona. Quando essa perfeição se torna instável, Iago passa a funcionar como álibi para a demanda de “provas” e para a negação da finitude de Desdêmona — e, por implicação, da própria. Conclui-se que a tragédia culmina na petrificação do coração: a morte do outro enquanto interlocutor legítimo e o colapso da inteligibilidade compartilhada que sustenta a vida humana comum.