Filósofo anandros: normas sociais e crítica à masculinidade tradicional em quatro ēthē diferentemente desarmônicos no livro VIII da República de Platão
Flora de Carvalho Mangini
- Autor
- Flora de Carvalho Mangini
- Revista
- Prometeus - Journal of Philosophy
- Edição
- 17 / 49
- Ano
- 2025
- DOI
- 10.52052/issn.2176-5960.pro.v17i49.24828
- Idioma
- pt
Este artigo investiga a relação entre normas sociais e a formação de personalidades (ēthē) no livro VIII da República de Platão, analisando como o thumoeides — a parte da alma sensível à honra (timē) e aos códigos sociais — estrutura disposições psicológicas e políticas. Partindo da crítica platônica à internalização acrítica de valores, demonstra-se que o thumoeides, embora adaptável a diferentes contextos normativos, tende a reproduzir hierarquias de poder quando não governado pelo logistikon (impulso racional). O estudo concentra-se nos quatro ēthē degenerados, destacando no ēthos timocrático o predomínio do thumoeides, cuja análise revela como a construção da virilidade (andreia) é central: o timocrata é moldado por uma socialização que associa honra a desempenho “masculino” (guerra, domínio político), enquanto o filósofo, visto como “pouco viril” (anandros), é marginalizado por priorizar a razão no lugar de performances de afirmação social. A crítica de Platão à masculinidade tradicional exemplifica como normas de gênero operam enquanto mecanismos de internalização de valores distorcidos. A timocracia e a oligarquia perpetuam uma economia psíquica na qual a autoafirmação está vinculada a estereótipos de gênero (ex.: dureza com escravos, aversão ao “feminino”, que é associado à passividade filosófica). Argumenta-se que a maleabilidade do thumoeides revela seu papel central na mediação entre indivíduo e sociedade, mas também sua vulnerabilidade a normas mesmo quando elas não são justas. Conclui-se que, para Platão, a justiça exige o fortalecimento do logistikon para evitar que as flutuações das normas sociais perpetuem ēthē desarmônicos.
