Os poderes da arqui-tela e a ideologia da ‘Transparência 2.0’ | The Powers Of The Arche-Screen And The Ideology Of ‘Transparency 2.0’
Mauro Carbone
- Autor
- Mauro Carbone
- Revista
- Revista de Filosofia Aurora
- Edição
- 37
- Ano
- 2025
- DOI
- 10.1590/2965-1557.037.e202531580
- Idioma
- pt
Nossa experiência com telas eletrônicas e digitais pode ser considerada como a pars pro toto desse "dispositivo" (no amplo significado sociocultural atribuído a esse termo por Foucault) que nos envolve. É por isso que considero decisivo elaborar o que eu chamaria de uma antropologia das telas, para a qual acredito que o valor heurístico oferecido pelo que propus definir como "arqui-tela" pode contribuir, a ser entendido como um "tema" ou princípio trans-histórico no qual se cruzam duas duplas de funções: não apenas a função de esconder e mostrar ao mesmo tempo, com a qual as telas são normalmente identificadas, mas também a que consiste em expor e ao mesmo tempo proteger, mediando assim nossa relação corporal geral (e não apenas visual) com o ambiente. De qualquer forma, o princípio que acabamos de definir contribui para produzir, em diferentes contextos histórico-culturais, diferentes regimes de visibilidade. Por sua vez, cada um deles está entrelaçado com um determinado regime de dizibilidade e, juntos, eles direcionam a atenção e a desatenção de nossos olhares tanto quanto os de nossos discursos. Nesse sentido, o display – cujo nome hoje em dia tende a acompanhar ou até mesmo substituir a palavra "tela", atribuindo à superfície que designa a função exclusiva de exibição – prova-se emblemático nos regimes atuais de visibilidade e dizibilidade. De fato, isso ajuda a afirmar a ideologia do que eu ironicamente classifico como "Transparência 2.0". Tal ideologia identifica o significado da transparência com a suposta ausência de qualquer mediação e, portanto, também traz implicações de grande significado político.
