A concepção do Poder em Foucault: do Poder de Soberania ao Biopoder
Ilso Stopassola da Silva
- Autor
- Ilso Stopassola da Silva
- Orientador(a)
- Odílio Alves Aguiar
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ — UFC
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2006
As análises foucaultianas sobre a passagem do poder soberano ao biopoder não apontam em nenhum caso à elaboração de uma relação comparativa de leis, dispositivos e aparelhos estatais e instituições. Tampouco tenderá, por fim, a formu-lar algum tipo de definição essencialista de ambos os poderes, mas uma analítica do poder não dissolvida em uma teoria. A partir deste prisma, Foucault pode traçar as linhas de mudança que têm conduzido do poder de soberania ao biopoder. O poder como soberania se manifesta como subtração, como direito de captação que culmi-na com o direito de apropriar-se da vida do súdito para aniquilá-la, utilizando para este fim o suplício, arte de reter a vida no sofrimento, suplício com caráter espeta-cular expondo assim o braço forte do soberano. Entre a poder de soberania e o bio-poder, a partir do século XVII, o poder se manifesta e se exerce através de procedi-mentos disciplinares sobre o homem-corpo, sobre o corpo-máquina. A multiplicidade de corpos singulares há de ser educada e controlada, aumentada e canalizada. Para isso é necessário um poder individualizante, capaz de introduzir correções em cada um dos corpos e de ordenar seu conjunto global. Processa-se mediante disciplinas e instituições como o exército ou a escola, promove e extrai suas forças de seus cida-dãos-corpos, com um crescimento paralelo de sua utilidade e sua docilidade. As disciplinas não devem ser identificadas com uma instituição ou um aparato, senão um tipo de poder, uma física de poder, uma modalidade no exercício do poder, uma tecnologia de poder. A partir da metade do século XVIII configurar-se o Biopoder, cujo centro de interesse já não é o corpo-máquina senão ao corpo-espécie, o homem como ser vivo e suporte de processos biológicos. O objetivo já não é sujeitar ou sugestionar cada um dos corpos, senão administrar fenômenos que atravessam o conjunto da população: a natalidade, a morbidade, as condições de vida, sua duração, o nível de saúde e higiene... Já não se trata, pois, de introduzir correções em cada corpo mediante disciplinas, senão estabelecer controles reguladores que permitam visualizar processos e acontecimentos que tomados individualmente resultam em acidentais ou ocasionais. Regularizá-los mediante estudos demográficos, estatísticas, quadros relacionais etc. permite fixar um novo âmbito do saber e delimitar um novo campo de intervenção. Através da analítica concebe o exercício do poder como uma microfísica, cujas relações funcionam como exercício de poder e produção de saber, afastando-se das análises que apontam a origem do poder no Estado, como locus privilegiado de poder-saber, o deslocamento do Estado como ponto de partida para o exercício de poder permite ver o poder como um conjunto de relações, que se exercem permanentemente, irradiando-se de baixo para cima, como uma rede que permeia todo o corpo social, produzindo diferentes pontos de poder ou """"campos de forças"""", que perpassam o cotidiano social e por isto mesmo não é locali-zado num ponto central.
