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Dissertações

A constituição da consciência em Levinas.

MARTINA KORELC

Dissertação
Autor
MARTINA KORELC
Orientador(a)
Jordino Assis dos Santos Marques
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS — UFG
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2001
2001MARTINA KORELC. A constituição da consciência em Levinas.. 2001. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS, GO. Orientador(a): Jordino Assis dos Santos Marques.3

O objetivo deste trabalho de mestrado é apresentar, interpretar a concepção da consciência na filosofia de E. Levinas, a partir de duas obras principais, Totalidade e Infinito (1961) e Autrement qu'Être (1974). ..O trabalho começa com a apresentação da noção da consciência em Husserl, porque o confronto com este autor é importante para a compreensão da argumentação de Levinas. Para Husserl, que procura um fundamento certo, indubitável para o saber, a noção da consciência tem conotação gnoseológica: consciência é a origem e o fundamento do saber. Por causa da estrutura cognoscitiva da consciência, com a sua característica principal, a intencionalidade, o objeto pensado na consciência é sempre correlativo ao sujeito, pois é constituído por ele pela obra da síntese. Outra característica da consciência, abordada no trabalho, é temporalidade: a consciência é tornar presente, contemporâneo ao sujeito um objeto pensado. Por fim, aborda-se como Husserl trata a constituição do sentido do outro pela consciência, isto é, como trata a questão da intersubjetividade...Levinas parte daquilo que para Husserl era difícil de explicar - a transcendência. Consciência é uma abertura à transcendência, ou seja, a própria subjetividade humana é abertura à transcendência, é fundamentalmente definida pela relação com a transcendência, isto é, com o Outro, pela relação intersubjetiva, irredutível à imanência da consciência, e esta relação e abertura são testemunhadas na consciência. Por isso Levinas opõe, na TI, o Infinito à totalidade. O outro é aquele que transcende infinitamente a consciência ou a sua estrutura intencional, a estrutura da correlação entre o sujeito e objeto, e não pode ser pensado de mesmo modo que os objetos do mundo. O Outro é Rosto, pessoal, tem sentido a partir de si, por isso é transcendente à consciência. A consciência é testemunha da ruptura da totalidade na qual eram pensados o Eu e o Outro. A perspectiva a partir da qual se entende a consciência não é mais gnoseológica, mas ética, a ética é o lugar da afirmação da transcendência e do sentido. ..A própria estrutura da consciência é ética. O Outro pensado pela consciência rompe a estrutura noese -noema e esta ruptura ou este tipo do transbordamento do que está presente na consciência é essencial para o sentido...A consciência não é mais a origem do sentido, não o constitui; a consciência é acolhedora do Infinito. Em TI, Levinas procura definir outros tipos de intencionalidade, anteriores e mais originários do que a intencionalidade objetivante representativa; fala da int. da fruição, da posse, que se dão na relação do Eu para com o mundo, porque é nesta relação que o Eu se constitui separado, mas ainda para si. Nesta relação com o mundo ainda não é possível a consciência no seu sentido pleno; esta só se dá na relação com o Outro, como consciência moral. A intencionalidade desta relação portanto, é ética - é sair de si em direção ao Outro, orientar a própria existência para o outro, ser-para-o-outro (desejo). ..O encontro com o Outro significa um pôr em questão o Eu e a sua relação com o mundo, significa um pôr a claro que este tipo da relação não pode ser estabelecido com o Rosto porque significa a aniquilação da transcendência. A consciência moral é um julgamento do Eu, é consciência da culpabilidade perante o Outro, um apelo ao Eu a sair de si, para o reconhecimento da responsabilidade pelo Outro. Isto significa também uma inversão da relação com o mundo, a compreensão do sentido do mundo a partir do Outro: o mundo como algo a ser oferecido ao Outro, pela linguagem A objetivação, a tematização, recebem um sentido ético no discurso...É na relação com o Outro que se instaura também a temporalidade. Ter consciência é ter tempo - é ser responsável, no presente, pelo Outro, pelo futuro e pelo passado, poder fazer algo no presente para responder ao apelo do Outro, à eleição. O presente é o tempo da resposta ao Outro. Esta resposta, responsabilidade infinita pelo Outro, constitui o Eu como subjetividade, o faz passar do fenômeno ao ser porque o ser é a relação entre o Mesmo e o Outro, é a transcendência. O ser é exterioridade, ética...Em Autrement qu'Être, Levinas radicaliza a idéia de que a transcendência é uma ruptura da consciência no sentido husserliano, é uma inversão da consciência e um """"outramente-que-ser"""" correlativo à consciência. A transcendência implica saída do ser. Levinas não pretende mais descrever o encontro entre o Mesmo e o Outro, porque esta relação é a própria """"identidade"""" da subjetividade, a sua significação, é o seu núcleo, a pré-condição ou a condição pré-originária da subjetividade. A subjetividade é o Outro-no-Mesmo. A significação da subjetividade dá-se neste nível pré-originário, anterior à consciência. Este nível é descrito por Levinas como inversão da consciência, impossibilidade de a consciência ser aquilo que Husserl descreve; há no cerne da subjetividade um vestígio do Outro, uma obrigação de responder pelo Outro que não deixa o Eu na quietude, que o tira do seu ser, do interesse por si, e o orienta radicalmente para o Outro; esta inquietude é a significação da subjetividade, significação testemunhada pela consciência como uma obsessão, perseguição - ter que preocupar-se pelo outro no meu próprio ser...Ora, isto marca a consciência com um passividade; a ordem temporal e a obra da síntese são substituídas pela diacronia, descontinuidade, lapso do tempo. A consciência como a síntese, como representação, só se dá na base desta significação pré-originária, na base desta obrigação à responsabilidade, como justiça. A consciência se constitui com a necessidade da justiça, isto é, com a necessidade de considerar vários outros contemporaneamente.