A Montanha Mágica – O Debate de Davos entre Cassirer e Heidegger.
ADRIANO RICARDO MERGULHÃO
- Autor
- ADRIANO RICARDO MERGULHÃO
- Orientador(a)
- José Carlos Bruni
- Universidade
- FACULDADE DE SÃO BENTO — FSB
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2011
O presente projeto de pesquisa tem por finalidade, propor uma discussão acerca de um debate em específico, ocorrido no ano de 1929, entre uma série de conferências organizadas entre os dias 17 de março a 6 de abril, em um resort localizado na montanha de Davos (Suíça). Foram realizados uma série de encontros , divididos em quatro “Cursos Universitários” ocorridos anualmente entre 1928 e 1931, entre filósofos e pensadores das mais variadas nacionalidades, com “ampla representação docente e estudantil, fundamentalmente de língua alemã e francesa” (DUARTE 2006) , que tinham por objetivo discutir a filosofia contemporânea à época. Uma das apresentações, do segundo curso, o de 1929, que tinha como temática global “Mensch und Generation” (“Homem e Geração”), discutiria a “Crítica da Razão Pura de Kant, e a tarefa da fundamentação da metafísica” (HEIDEGGER, 1996 p. 208). Dois ilustres convidados debateriam o tema: Ernst Cassirer e Martin Heidegger. Grandes representantes de duas correntes filosóficas vigoradas na Alemanha do séc. XIX. Neste período também, estavamos diante de uma configuração exemplar sobre a divisão de tradições ideológicas distintas, presentes no pensamento filosófico daquele agitado contesto histórico, previamente a “grande depressão”, resultado do Crash da bolsa de valores de Nova Iorque, ocorrido em outubro do mesmo ano. Afora este atribulado clima econômico, temos esta configuração filosófica distinta, quanto às esferas do estudo acadêmico alemão, a saber, a existência de um movimento denominado Neokantiano guiado pela epistemologia da ciência, que influenciou E. Cassirer (junto a uma apropriação do método transcendental kantiano) ao elaborar sua obra de maior relevo, a “Filosofia das Formas Simbólicas” (com três volumes publicados em vida pelo autor). E por outro lado, o historicismo e a hermenêutica de W. Dilthey, junto à fenomenologia de E. Husserl, que influenciaram sobremaneira Heidegger na elaboração de seu próprio caminho filosófico. O caráter desta “divisão” é marcado pela oposição entre filosofia analítica, de orientação lógico/semântico (científico/epistemológico) e a filosofia continental, de inclinação fenomenológica (e tendência “literária”). Como principais representantes da primeira corrente, poderíamos citar Carnap, um dos mentores do Círculo de Viena do Positivismo Lógico, como filósofo emblemático da tradição analítica, e Husserl e Heidegger, como os pilares daquilo que aqui se denominou como tradição continental. Entre estes dois extremos, tentaremos situar com algum destaque a filosofia da cultura desenvolvida por Cassirer. Que serviria como ponto intermediário entre as duas culturas antagônicas. Esta é a perspectiva de leitura sugerida por M. Friedmam , em sua obra “A parting of the ways-Carnap, Cassirer, Heidegger” e por P. Gordon em “Continental Divide”. Obras que serão utilizadas como referencia teórica sobre o assunto neste projeto, por se tratarem das pesquisas mais atuais realizadas sobre o tema. Seguindo esta linha interpretativa, este projeto de pesquisa tem por diretriz, a análise histórica e filosófica, relativa não só ao conteúdo do diálogo travado por Heidegger e Cassirer, sobre duas leituras possíveis da filosofia Crítica de Kant. Mas de forma mais abrangente, nosso intuito é esclarecer esta polêmica, procurando situá-la à luz, do contexto filosófico que a produziu, ou seja, definir quais tradições serviram de “pano de fundo” para a realização desta (disputatio) “disputa”. Visto que no presente projeto, existe a preocupação central, de esclarecer a transformação do problema da objetividade, mediante uma compreensão mais aguda das ressonâncias e campos de influência da filosofia de Immanuel Kant dentro do âmbito das tradições que culminaram ao longo dos séculos XIX e XX (em especial as escolas de Baden, Marburg e a universidade de Freiburg), como uma resposta, ou desdobramento das consequências do declínio da República de Weimar e da extensão da influência dos movimentos classificados como Romantismo e Idealismo Alemão.
