- Autor
- Aline Sabbi Essenburg
- Orientador(a)
- Marcos José Müller
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA — UFSC
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2004
No texto de candidatura ao Collège de France, Merleau-Ponty reconhece existir, em sua obra, dois projetos distintos, mas complementares. Por um lado, há o projeto de restituição do munda da percepção, tal como ele se configurou nas obras Structure di comportement e Phénoménologie de la perception. Tratava-se ali de se mostrar que nossa percepção do espaço, das coisas, do outro e do mundo humano se dão a partir de nossa inserção corporal num domínio de generalidade, que é o mundo da vida, o qual, entretnato ficara solapado pelo discurso objetivista das ciências naturais e psicológicas, bem como pelo discurso reflexivo do subjetivismo filosófico. Não obstante o mérito desse projeto no sentido de resgatar o caráter temporal de nossos vínculos corporais com o mundo da vida, Merleau-Ponty apercebeu-sede que o resultado de sua investigação o conduzira a uma má ambiguidade, que é aquela que diz respeito à própria natureza de nossa inserção corporal. Por um lado, é a partir de nosso corpo que nos fazemos mundo e nos comunicamos com os outros. Mas por outro, é o mundo que nos assegura a unidade dessa comunicação. De onde a idéia de uma inserção, ao mesmo tempo, para si e para todos. O que não fez Meleau-Ponty desistir, pois o fato é que tal comunicação intercorporal efetivamente se estabelece. De onde o filósofo compreende que a investigação dos fenômenos intersubjetivos, como a comunicação, a arte e a política, poderiam melhor elucidar essa universalidade estética na qual nosso corpo apenas nos iniciou..Ora, o presente trablaho não prima por investigar esse itinerário temático de Merleau-Ponty. A intenção é sinalizar para algo que, do primeiro até o segundo projeto permanece como âncora de uma só filosofia, a saber, a intuição de que, na arte, assim como na vida (e isso o filósofo quer mostrar) esse consórcio entre o corpo, as coisas e os outros está, antes do que explicado, plenamente realizado. Nesse sentido, parto da intuição elementar, que ocorre a qualquer leitor das obras de Merleau-Ponty, de que a obra de arte é não só o pornto de passagem do mundo da percepção para o mundo da cultura, mas resguarda em si o segredo desse desenlace intercorporal de um só mundo que é antes vivido do que explicado. Não obstante Meleau-Ponty não haver elaborado uma teoria explícita sobre a obra de arte, ela se exprime em vários momentos de sua obra. E nes conversa pretendo, dentro de certo limite, deslindar alguns aspectos dessa essência, dessa intuição merleau-pontyana sobre a natureza exemplar da obra de arte como realização carnal do sentido no mundo da vida.
