A reflexão ética kierkergaardiana: exame referencial das relações entre consciência e liberdade na produção de 1841 a 1848
André de Oliveira
- Autor
- André de Oliveira
- Orientador(a)
- João Carlos Nogueira
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS — PUCCAMP
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2003
Este trabalho traz como impulso intelectual proporcionar uma visão mais esclarecida, que se pretenda tão específica e abrangente, acerca de dois conceitos fundamentalíssimos na obra do primeiro Kierkegaard (em referência ao desenvolvimento de seu pensamento filosófico no período compreendido entre O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates - 1841 - e Os dois pequenos tratados ético-religiosos - 1848 ) e que, destarte, são esquecidos quando se trata de abordar as perspectivas mais insinuantes de sua reflexão moral: a consciência de existir e a liberdade de ser indivíduo. O exame referencial das relações entre consciência e liberdade marca a trajetória definitiva da moral kierkegaardiana e projeta, para o campo de uma moral absoluta, circunscrita por sua situação pela dogmática cristã que tece a eficácia da revelação, a afirmação tão diretriz sobre a qual se fundamentará a discursividade ética e antropológica do pensador dinamarquês: """"A essência da ética está na existência do indivíduo"""". Esta existência se designa como um viver excelente e transcendental para Kierkegaard. Esta excelência de significado para a vida humana é promanada do interior do indivíduo, no qual é decorrente o grande meio para transcender todas as mediações e alcançar um estado absoluto, um Estado do Indivíduo perante Deus, que seja o finalíssimo corolário de toda vida ética e religiosa. Ademais, a vida ética assume terminantemente um status de redenção para o indivíduo emergente na dimensão geral dos costumes coletivos. Segundo a hermenêutica de Temor e tremor, é notório verificar que no indivíduo mesmo, em seu interior humano, a ética se dá como fator, fato e elemento de ponderação dos fatos para a vida exterior, para a vida em espécie e conclama-o a uma vivência abortiva do conceito, para compreender a realidade geral, que se lhe apresenta especularmente através de sua realidade pessoal. Viver a ética, então, é basear-se no exercício no exercício de atribuição do individual no geral, contudo, mantendo-se distância de tudo aquilo que possa propugnar as estéreis efemeridades e circunstancialidades da vida. A ética é um fenômeno da consciência; sendo um fenômeno seu fato é o factum moral, i. é., o fato da ética compartilha da instância especulativa da ética dos fatos. Esta constatação emerge como a tese sobre a qual se sustenta a teoria dos Estágios sobre o caminho da vida. Estes estágios, que perfazem o caminho da vida, são, antes, indicações de como podem os indivíduos reagirem naturalmente à idéia que os convida à existência. São, na verdade, fases nas quais a liberdade deixa estabelecida suas anexações a uma possibilidade de transcendência. Diante desta possibilidade, a consciência livre ou a liberdade consciente são subjugadas pela opção que forja existencialmente o salto qualitativo, por muitos tradutores e estudiosos admitido como """"salto da fé"""". Por este salto, o indivíduo supera o gênero, sua identidade, suas difernças para com a espécie, seu quantum, seu finito para inserir-se na síntese, entre corpo e alma, indivíduo e coletivo, homem e divindade. E isto engendra uma performance que se relaciona ao homem de dentro, ou, ao dentro do homem. Esta proto-categoria kierkegaardiana desposa a sabedoria do velho sistema hegeliana, e, contra a qual soa nula a expressão de que o exterior é o interior. Mostrando em trato minucioso como são explicitadas as influências decorrentes no constructo ético kierkegaardiano ( a anti-hegeliana, a kantiana e a da crítica a Schelling), não se pode desbaratar que é com Hegel que pretendeu travar um acerto de contas; isso porque, a ética, como via fenomênica da moralidade, tem o seu dever já prenunciado: fazer com que a consciência individual participe, cada vez mais de uma liberdade plena, na qual todo critério é conteudizado pelo Amor. De fato, é com o conceito de amor que toda reflexão existencialista posterior adquire seu sentido definitivo. É o amor que enreda todo desespero à esperança e perturba toda existência caótica em uma existência angustiante, é o amor que acede ao Logos e faz com que toda sabedoria seja universal, é o amor que propicia ao existente pensar a existência sem incorrer na contradição entre pensamento racional e vida concreta. Isto porque o Amor é virtude, força e verdade. O amor é a forma mais reluzida de uma verdade cristã. Assimilando-se destas idéias, desenrola-se, pois, o Logos ético kierkegaardiano que, em muito reflete sua personalidade filosófica. Este Logos aborda temas até então originais como a singularidade e a angústia e se veicula a antecessores e procedentes na história da filosofia, em relação ao século XIX: Sócrates e a ironia, Leibniz e a teoria das mônadas, Heidegger e o conceito de vida, Sartre e a náusea, Husserl e a possibilidade ideal.
