A relação entre a crítica de Hegel a Kant e o desenvolvimento da Fenomenologia do espírito
EDIOVANI GABOARDI
- Autor
- EDIOVANI GABOARDI
- Orientador(a)
- Hans-Georg Flickinger
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL — PUC/RS
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2002
A Fenomenologia do espírito de Hegel parte de um problema básico, a saber, o problema da fundamentação do saber científico. Na introdução dessa obra, Hegel considera a posição da filosofia crítica de Kant a respeito da questão. A tentativa do autor é a de mostrar que ela é em si mesma incoerente, bastando para isso comparar seu ponto de partida com seus resultados. Para Hegel, a conclusão do trabalho de Kant é a afirmação de que a coisa em-si é incognoscível. Mas a investigação que fundamenta essa afirmação só é possível pela desobediência desse critério. Quer dizer, só se pode proceder a investigação crítica pressupondo, acriticamente, a validade de certos conceitos, como o de sujeito, objeto, etc...Esse modo de tomar a questão obriga Hegel a deslocar o projeto de fundamentação da ciência para o interior do próprio saber científico, pois fica evidente aí que toda tentativa de realizar essa tarefa como algo prévio acaba tendo de partir da aceitação injustificada de certos conceitos. Mas, com isso também uma outra tarefa ganha sentido. Já que a partir do saber não-científico não se pode fundamentar a ciência, a tematização deste saber torna-se o próprio processo pelo qual a ciência aparece à consciência. Esse é justamente o objeto da Fenomenologia do espírito, que ganha sentido, assim, como conseqüência da crítica de Hegel a Kant...Mas a crítica de Hegel a Kant também tem um outro papel em relação à Fenomenologia. Ela antecipa a própria argumentação que vai desenvolver-se no seu interior. A filosofia kantiana, nesse sentido, pode ser considerada uma espécie de figura da consciência, aos moldes daquelas que são expostas por Hegel na própria Fenomenologia. O modo como Hegel critica Kant é análogo ao modo como a consciência tematiza seu próprio saber. Em ambos os casos, estão em jogo três princípios: as idéias de que o saber tem como meta cor-responder a seu objeto, de que todo saber pressupõe, de alguma forma, algo como verdade e de que a negação de um saber é também a elaboração de um novo.
