- Autor
- Inácio Pinzetta
- Orientador(a)
- ALVARO LUIZ MONTENEGRO VALLS
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL — UFRGS
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2001
Aspectos importantes do conceito de ética em Kierkegaard .... Aluno = Inácio Pinzetta.. Orientador: Prof. Dr. Álvaro Valls.. Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS.. Abril de 2001.. .. ......As obras básicas de Sören Kierkegaard que utilizei na pesquisa e na elaboração desta Dissertação foram: A Alternativa, Temor e tremor, O Conceito de angústia, Post-Scriptum definitivo e não científico às migalhas filosóficas, Doença para a morte e As obras do amor. Destas, apenas a última, As obras do amor (Der Liebe Tun) foi editada com o nome de Sören Kierkegaard. A rigor, portanto, se quiséssemos falar especificamente do pensamento de Kierkegaard nesta Dissertação deveríamos nos ater apenas nas Obras do Amor. No entanto, mesmo que escritas por pseudônimos, de alguma maneira, refletem o pensamento do pensador dinamarquês, na medida em que, usando o método de um dos seus pensadores preferidos, Sócrates, e fazendo constante uso da ironia, deixa para o leitor a decisão de assumir as categorias filosóficas e mesmo as teológicas na sua própria existência. É necessário, pois, ter muito cuidado em atribuir o que pertence ao corpo filosófico e teológico kierkegaardiano. Ao longo da Dissertação sempre que possível faço referência aos pseudônimos das obras e das categorias usadas por Kierkegaard. Neste ponto, após esta observação, o título da presente Dissertação: Aspectos importantes do conceito de ética em Kierkegaard, pode parecer paradoxal ou mesmo contraditório, mas não o é, posto que procurou-se dar a Kierkegaard o que é de Kierkegaard. .... Feita esta observação ingressamos no tema desta Dissertação, a ética, e sua especificação: aspectos importantes do conceito de ética em Kierkegaard. Nos Estádios do Caminho da Vida, Kierkegaard publica sob o pseudônimo de Frater Taciturnus, a conhecida teoria das três esferas: a estética, a ética e a religiosa. Ali ele precisa aquilo que toda a sua obra vai demonstrar: que a esfera ética é uma esfera de passagem, intermediária, a estética, a esfera da imediatidade, a religiosa, a esfera da realização. Adiantando-nos, podemos já acenar: o ponto teleológico da existência em Kierkegaard é a esfera religiosa. A ética desempenha uma função de mediação. O ético é uma forma de vida ou uma concepção de vida que constitui a passagem do estético ao religioso. Na verdade, esta é a leitura que geralmente se faz da compreensão de ética em Kierkegaard, correta aliás, mas é tão acentuada e quase que exclusiva, que eclipsa tantas nuanças na tessitura do corpo kierkegaardiano. Auxiliado pelo recurso da pseudonímia, Kierkegaard pode, sem se contradizer, enunciar e desenvolver vários conceitos de ética. Com Frater Taciturnus ela está clara e distintamente conceituada como esfera de passagem. Em A Alternativa, o ético é uma forma de vida, uma concepção de vida que é necessário escolher, porém, a pessoa é livre também em não escolher. Daí que a eleição, tema que ocupa uma boa parte do meu primeiro capítulo, instaura a ética. Em Temor e tremor, Johannes de Silentio, designa o ético como o geral. A ética é o geral, entendida como o normativo em sentido social. Em toda obra kierkegaardiana a ética é uma tarefa que deve ser realizada pelo indivíduo: tarefa de escolher-se a si mesmo, tarefa em cumprir com o seu dever dentro do dever da sociedade, tarefa em executar com paixão tudo aquilo que deve realizar. .... Kierkegaard introduz ainda na sua compreensão de ética uma outra diferenciação, aliás, muito importante, não mais restrita nos limites de uma esfera, mas que possibilita uma nova leitura, um horizonte novo, o que ele chama primeira ética e segunda ética. Esta diferenciação é apresentada e desenvolvida em O Conceito de Angústia, com o significativo subtítulo: uma simples investigação psicológica orientada em direção do problema dogmático do pecado original. Ali Vigillius Haufnensis dá-se conta da existência do pecado, conceito ausente na filosofia, mas que segundo Vigilius Haufniensis existe na realidade humana. A ética encalha sobre o pecado original. O pecado obstrui o caminho para a ética. Deve haver, portanto uma outra ciência que possa dar conta deste problema. Depois de um longo percurso reflexivo Vigilius Haufniensis chega a conclusão, que a somente a Dogmática, ou a Revelação são capazes de fazer frente ao pecado. Ao final da introdução ao Conceito de Angústia Vigilius Haufniensis resume sua definição deste modo: """"A primeira ética ignora o pecado; a Segunda ética tem ao seu alcance a realidade do pecado."""" E Acrescenta: """"A primeira ética pressupõe a metafísica; a Segunda pressupõe a dogmática, porém, também a aperfeiçoa, de tal modo que, como nunca antes, a pressuposição vem à luz."""" A Segunda ética, portanto, pressupõe a Dogmática. A primeira , diz Vigilius Haufniensis, tem como pressuposto a metafísica, mas encalha na realidade do pecado, enquanto a Segunda ética é a ética que se distingue pelo fato de """"ter sua idealidade na consciência penetrante do pecado. Uma ética válida apenas se aceitarmos compartir sua pressuposição religiosa. Mas já estamos, impulsionados pelas asas da fé, distantes da Antropologia, e totalmente fora do alcance da razão. Este conceito de Segunda ética nunca mais vai aparecer ao longo da obra kierkegaardiana. É refletido uma única vez: no Conceito de Angústia. No entanto, as Obras do Amor, livro referencial do último capítulo da presente Dissertação, tem como último arrecife, a Segunda ética, a revelação, a doutrina cristã. .... Não é apenas na esfera ética que Kierkegaard passa o bisturi conceitual dividindo-a em duas. Também na esfera religiosa o pensador dinamarquês estabelece uma diferenciação: religiosidade A e religiosidade B. Parte-se pressuposto de que Deus não está fora da pessoa mas dentro dela mesma. Deste modo a religiosidade A consiste na interiorização do indivíduo na sua relação com a beatitude eterna. Natural e imanente a religiosidade A apoia-se na interioridade de cada pessoa, a qual está destinada naturalmente à felicidade. O indivíduo necessita na Religiosidade A de um mestre que lhe ajude a descobrir dentro de si mesmo a verdade a fim de manter uma relação harmoniosa consigo e com a natureza. A religiosidade A é uma religiosidade puramente humana. Conhecer-se a si mesmo é, portanto, decisivo. Por sua vez, a religiosidade B rompe com a imanência porque supõe a intervenção de Deus na história e se apóia na revelação divina. Esta pressupõe a religiosidade A. A relação entre religiosidade A e B não é uma relação entre as esferas ética e religiosa, mas entre imanência e transcendência. .... O que tenho narrado até agora está delineado na introdução da Dissertação e perpassa como fio ariano todo o meu trabalho. .. .. Procurei destacar no primeiro capítulo, após contextualizar a questão ética, que é tratada em Kierkegaard na perspectiva existencial, o conceito de eleição, decisivo para se poder ingressar na compreensão de ética, principalmente na vasta obra A Alternativa. Nela, principalmente em Estética e ética na formação da personalidade, confrontam-se dois modos, duas visões de mundo e de existência: o estético e o ético. O estético, assumido pelo pseudônimo A (um jovem) defende que a vida deve ser direcionada para o gozo. Viver o gozo, no gozo, pelo o gozo e para o gozo, solapando aos compromissos e à seriedade da vida. Para se compreender o modo de vida estético Kierkegaard apresenta três paradigmas: Don Juan, o eterno sedento, que está sempre a procura de um novo prazer e que quer encontrar em cada mulher a plenitude da feminilidade. Representa o protesto estético, a irreverência contra toda a determinação do cristianismo de querer a subordinação do sensível ao espiritual. Fausto, o homem da dúvida, eu não conhece a verdade para por meio dela poder seguir na continuidade o seu caminho. E Ahasverus, o judeu que não consegue e não pode morrer. É o símbolo da vida fechada, o peregrino de um caminhar desesperado e sem objetivo, sem esperança em Deus e no homem. O estético vive do possível. Vê possibilidades por todas as partes. É possível ser pastor. É possível ser poeta. É possível ser escritor. É possível casar. Mas não assume a existência na sua realidade. Se inicia alguma coisa, logo ali, mais adiante, troca de rumo. É incapaz de continuidade. Por isso, o ético, representado pelo B (o assessor Guilherme, homem casado, pai de três filhos, trabalha a serviço do estado, burguês) defende uma existência vivida na seriedade, na assunção das tarefas e deveres. O matrimônio é o grande referencial e modelo do ético. Ele representa a continuidade, a seriedade no compromisso com o dever. (Kierkegaard diz: O Apóstolo Paulo não era um homem sério porque não era um homem casado). .. Nas cartas em que o assessor Guilherme escreve ao seu amigo A insiste para que ele passe do mundo das possibilidades para o mundo da realidade, da continuidade. Aqui a questão ética é colocada em termos existenciais de desespero e escolha. A existência ética manifesta a interioridade do indivíduo na realização de uma história; exige que o homem manifeste sua interioridade. O princípio desta realidade de si é a escolha, ponto decisivo que faz a passagem, o salto, da estética para a ética. O trecho decisivo, e talvez mais polêmico, em A Alternativa é: """"Meu aut-aut não significa , antes de tudo, a eleição entre o bem e o mal. Significa a eleição pela qual se escolhe o bem e o mal, ou pelo qual se faz a exclusão. Trata-se aqui de saber sob quais determinações se quer considerar toda a existência e vivê-la. O que instaura a ética é, portanto, a vontade. Querer o querer, é a pedra angular, sobre a qual se constrói as demais escolhas. Querer o querer é o ato de eleição sem o qual não se pode escolher mais nada. Mas escolher o que ou a quem? A quem ou o que se ele ao exercer ao ato eletivo? Elege-se o absoluto, o eu mesmo na minha eterna validez. Não há dúvidas de que Kierkegaard foi buscar esse conceito de escolha e sua imbricação com a vontade, na escola estóica, e a burilou para poder desenvolver sua categoria de diferenciação entre estética e ética. Considerei necessário, colocar junto ao conceito de ética o conceito de arrependimento porque sem ele o indivíduo não pode escolher-se a si mesmo na sua concretude, na sua realidade. O indivíduo só pode eleger-se a si mesmo se ele se assumir como é, sua história suas circunstâncias, o seu real e não apenas os seus """"possíveis"""", as suas virtualidades. .... Não poderia ficar fora do itinerário ético a questão do eu, do espírito, porque é o espírito quem plasma o homem na síntese corpo, alma, espírito. Ser homem, ser eu, é uma tarefa do próprio homem. O homem é seu próprio artífice. Ele nasce com os elementos já dados. Corpo, alma, espírito. Cabe ao homem a execução da síntese. Sem uma justa harmonia entre os termos, advém o desespero, categoria da desarmonia, do caos no ser humano. O conceito de eu, de pessoa, claudicaria se não colocasse no seu interior a categoria do instante, da compreensão de tempo, de história em Kierkegaard, tema tratado com bastante rigor conceitual. Vigilius Haufniensis diz que o eterno é o presente, pois o tempo é a sucessão que passa, e eterno não passa e que portanto, o eterno é o presente. O eterno é um avançar que não se move do lugar. E quem instaura o eterno no tempo, ou seja, o presente, é a encarnação do Logos, ou dito mais claramente, a encarnação de Deus na história. Esse fato, extraordinário para a fé, e absurdo, totalmente absurdo para a razão, faz com que tempo e eternidade se toquem, se imbriquem. Estamos, então, diante do instante. .... Nenhum conceito é tão básico, tão essencial em Kierkegaard quanto o conceito de Indivíduo. O próprio pensador afirma isto em dois apêndices em Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. Só com este conceito poderia estilhaçar ou pelo menos tentar estilhaçar o Sistema hegeliano, que dominava os ares europeus, e portanto, dinamarqueses também. Kierkegaard queria destacar o ser humano, a pessoa, o indivíduo, sua tarefa consigo mesmo e com a história. Somente com a categoria do indivíduo poderia fazer frente ao Sistema e é o que fez. Se deu frutos, não se sabe, o que se sabe, é que a partir de Kierkegaard vai irrompendo na filosofia o existencialismo, o interesse para com a existência, com a paixão de existir, com o indivíduo. Kierkegaard quer, não destruir o Sistema, mas salvar o indivíduo, dando-lhe importância. Dentro deste capítulo, o terceiro da Dissertação, procuro destacar a importância da categoria do indivíduo e sua relação com o geral. O referencial deste capítulo é a análise que o poeta Johanes de Silentio faz do narrativa Bíblica de Abraão e seu filho Isaac. Pode Abraão, sair de casa, às escondidas, sem nada dizer à sua esposa e mãe de seu filho, que iria sacrificar Isaac? Pode sacrificar o seu filho sem nada dizer-lhe? Será Abraão louco, assassino ou como dizem os cristãos, muçulmanos e judeus, o pai da fé? É esse o tema que desenvolvo no terceiro capítulo. Apenas com a categoria do indivíduo se pode tentar argumentar a prova de Abraão, por que, conforme Johanes de Silentio, O indivíduo está acima do geral. .... Encerro meu trabalho com um dos temas mais preferidos de Kierkegaard: o amor. Poucas obras em Kierkegaard são tratadas com tanto cuidado e com uma exegese tão qualificada quanto esta obra. Logo no início Kierkegaard coloca a problemática: o dever de amar não encerra nele mesmo uma contradição? Por que o amor deve ser ordenado se, pelo menos aparentemente, se apresenta como um impulso natural ao ser humano. O fato é que para o cristão amar não é uma excelente alternativa mas um dever. Para isso, as Obras do amor, procura, passo a passo, conceituar o que é o amor: o amor amizade, o amor erótico e o amor cristão. Analise também quem é o próximo que se deve amar. Estamos dentro da Segunda ética, ou na esfera religiosa, ali onde, conforme Kierkegaard, os valores estéticos e éticos não são volatizados, mas transformados. Prima facie, ao lar as Obras do amor chama atenção o aparente descaso, o descompromisso de Kierkegaard com as coisas deste mundo, com os problemas sociais, econômicos, políticos. Com o seu conceito de amor e de próximo. Do amor em nada seletivo e preferencial. O mais agudo crítico que se levanta contra o conceito de amor, e principalmente de próximo, é Adorno, principalmente o primeiro Adorno, ainda jovem, que tem uma leitura e exegese do Novo Testamento muito diferenciada, a saber, o amor cristão deve ser preferencial: voltado principalmente para os pobres. O que Kierkegaard quer garantir, ao interpretar o amor cristão como um dever para com todos, é que nenhum ser humano possa não ser digno de um amor sincero e profundo. Daí que conclui com uma frase edificante do Diário de Kierkegaard:.... """"A idéia de Sócrates de amar o feio é substancialmente a doutrina cristã de amar o próximo. Porque o feio é objeto reflexo, portanto, ético, enquanto o belo é o imediato que nós todos estamos mais que contentes em amar. Neste sentido o próximo é o feio.""""
