- Autor
- Maria de Nazaré da Rocha Penna
- Orientador(a)
- Odílio Alves Aguiar
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ — UFC
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2002
O objetivo dessa dissertação foi identificar a dignidade humana no contexto das relações dos homens, segundo o pensamento de Hannah Arendt, voltado para a compreensão das condições inalienáveis da experiência humana no mundo e das atividades da vita activa. Partimos da da falência do estatuto dos Direitos Universais do Homem a partir do terror totalitário. Acompanhamos a reflexão de Arendt em sua procura de restituir a dignidade das relações humanas, ou seja, a dignidade da política, nas suas obras A Condição humana e Entre o Passado e o Futuro, mas principalmente na primeira, onde ela identifica as atividades da ação e do discurso como aquelas que tornam possível a existência de corpos políticos e da constituição destes como fundamento para a reconquista da dignidade humana. Arendt volta à polis histórica para buscar em sua fonte as bases de um novo pensamento político, reconhecendo o gênio grego na identificação das esferas pública e privada que lhe dera o sentido fundante de sua organização política, juntamente com a clara consciência da diferença entre as atividades exercidas pelos homens e do papel que elas assumiam na conjuntura da Cidade-Estado: a poiesis correspondia ao trabalho dos artífices ou demiourgoi que era realizado em favor de um público; o labor escravo era exercido no interior do oikós e sustentava a economia doméstica cujo objetivo era prover as necessidades biológicas em função da manutenção da vida, de modo a livrar o cidadão da esfera da necessidade. Dominado esse âmbito, este podia ingressar na liberdade da esfera pública, onde não havia governantes nem governados e a ocupação dos cidadãos como homens livres era a ação e o discurso, às quais eles de dedicavam para engrandecer a polis e alcançar sua própria imortalização. Baseada nesses critérios históricos, a análise de Arendt da condição humana no mundo identificou como as três atividades fundamentais da vita activa o labor do animal laborans, o trabalho ou fabricação do homo faber e a ação, única atividade que é exercida exclusivamente em presença de outros indivíduos, e para a qual não há intermediação de coisas ou matéria. Para a autora, a ação é a atividade que mais intrinsecamente se relaciona à natalidade, dado que ela corresponde à capacidade de convivência humana, ou seja, a capacidade de """"fundar e preservar corpos políticos"""" (CH, 16/ 17); Na interpretação de Arendt, a chegada de novos seres é a força que move a ação e a política, porque cada recém-nascido traz ao mundo o ímpeto de um novo começo para os negócios humanos; além disso, a ação e o discurso entre os homens podem se tornar memoráveis como histórias que, transmitidas às gerações, dão sentido à aventura humana por preservarem feitos e palavras grandiosos de seres humanos especiais, conferindo-lhes a glória da imortalização. Para Arendt, a ação e o discurso promovem a comunicação que permite o conhecimento do mundo e dos interlocutores entre si, que só assim adquirem senso de realidade de si próprios e do mundo. É pela comunicação humana que se institui o espaço público e é através dessa instituição que os homens desenvolvem a capacidade para pensar, sua imaginação e imparcialidade. De acordo com a análise de Arendt, depreende-se que entre as atividades inerentes à condição humana, a ação e o discurso elevam ao mais alto grau a dignidade humana porque promovem a existência da esfera pública. Para Arendt, a capacidade para a ação que realiza o imprevisto, trazida por cada recém-nascido, é a marca característica da identidade única desse ser singular com sua potencialidade de transformar o mundo: a linguagem científica chama essa possibilidade do """"infinitamente improvável"""" estatisticamente, mas na natureza ela ocorre regularmente, e é o mesmo que a linguagem religiosa chama de """"milagre"""". As histórias geradas por essas ações inalienávelmente humanas têm a capacidade, segundo Arendt, de se constituírem na """"própria fonte de sentido que ilumina a existência humana""""(CH, 337).
