EICHMANN E A INCAPACIDADE DE PENSAR: ALIENAÇÃO DO MUNDO E DO PENSAMENTO EM HANNAH ARENDT
RENATO DE OLIVEIRA PEREIRA
- Autor
- RENATO DE OLIVEIRA PEREIRA
- Orientador(a)
- RICARDO MONTEAGUDO
- Universidade
- UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO ( MARÍLIA ) — UNESP-MAR
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2020
A PRESENTE DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM FILOSOFIA TEM O OBJETIVO DE INVESTIGAR QUAIS SÃO CONDIÇÕES QUE PROPICIAM AQUILO QUE HANNAH ARENDT DENOMINOU DE INCAPACIDADE DE PENSAR (THOUGHTLESSNESS). NOSSO FOCO É O CASO EICHMANN TAL COMO DESCRITO PELA PENSADORA EM EICHMANN EM JERUSALÉM (1963), OBRA QUE RESULTA DA PARTICIPAÇÃO DE ARENDT NO JULGAMENTO DO EX-TENENTE-CORONEL DA SS. DURANTE O TERCEIRO REICH, EICHMANN FOI O RESPONSÁVEL PELA GESTÃO E ORGANIZAÇÃO DOS TRANSPORTES DOS JUDEUS PARA OS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO E EXTERMÍNIO. O DESCOMPASSO ENTRE A MONSTRUOSIDADE DOS CRIMES QUE O ANTIGO TENENTE-CORONEL NAZISTA AJUDOU A PERPETRAR E A SUA FIGURA PERANTE O TRIBUNAL – QUE NÃO PARECEU MONSTRUOSA OU MALÉFICA A ARENDT, MAS COMPLETAMENTE NORMAL E ATÉ MEDÍOCRE –, LEVOU A PENSADORA A CUNHAR A EXPRESSÃO BANALIDADE DO MAL. COM TAL EXPRESSÃO, ARENDT VISAVA DESIGNAR A PRÁTICA DE AÇÕES QUE, APESAR DE RESULTAREM EM UM MAL EXTREMO, NÃO SÃO CAUSADAS POR MOTIVOS TORPES, INSTINTOS CORROMPIDOS OU POR UMA VONTADE MALIGNA, E SIM PELA OBEDIÊNCIA AO DEVER DE OFÍCIO. PARA EXPLICAR O PROBLEMA DO MAL BANAL, ARENDT SUPÕE A EXISTÊNCIA DE UMA RELAÇÃO ENTRE A INCAPACIDADE DE PENSAR (THOUGHTLESSNESS), NOTÁVEL EM EICHMANN PELO USO CONSTANTE QUE ELE FAZIA DE FRASES DE EFEITO E DOS CLICHÊS, E A PRÁTICA DO MAL. NESTA DISSERTAÇÃO, ACEITAMOS ESSA RELAÇÃO COMO PRESSUPOSTO PARA INVESTIGARMOS QUAIS SÃO CONDIÇÕES QUE PREJUDICAM A CAPACIDADE DE PENSAR. EM UM PRIMEIRO MOMENTO, ANALISAMOS, COM BASE NO ENSAIO “IDEOLOGIA E TERROR”, ÚLTIMO CAPÍTULO DE ORIGENS DO TOTALITARISMO, COMO O REGIME TOTALITÁRIO PRODUZ A INCAPACIDADE DE PENSAR A PARTIR DA IDEOLOGIA ENTENDIDA ENQUANTO A LÓGICA DE UMA IDEIA. ESSA ANÁLISE NOS MOSTROU QUE A EXPERIÊNCIA DA SOLIDÃO (LONELINESS), NA QUAL O TOTALITARISMO SE ALICERÇA, JÁ ERA RECORRENTE NAS SOCIEDADES DE MASSA ANTES DA ASCENSÃO DOS REGIMES TOTALITÁRIOS. ASSIM, PARA COMPREENDERMOS COMO ESSA EXPERIÊNCIA É ENGENDRADA PELA PRÓPRIA ERA MODERNA, RECORRERMOS À OBRA A CONDIÇÃO HUMANA E, EM ESPECIAL, AO TEMA DA VITÓRIA DO ANIMAL LABORANS, QUE ARENDT MENCIONA JÁ EM “IDEOLOGIA E TERROR”. A QUASE TOTAL REDUÇÃO DE TODOS OS ATOS HUMANOS AO TRABALHO (LABOR), ENTENDIDO ENQUANTO A ATIVIDADE QUE VISA SATISFAZER ÀS NECESSIDADES BIOLÓGICAS, FAZ COM QUE A VIDA HUMANA SE TORNE DESPROVIDA DE SENTIDO. ISSO OCORRE PORQUE A MERA BUSCA POR SUSTENTO, EMBORA SEJA IMPORTANTE PARA A MANUTENÇÃO DA VIDA, NÃO É SUFICIENTE PARA INSTAURAR UM MUNDO COMUM NO QUAL POSSA SE AFIRMAR A PLURALIDADE HUMANA, CONDIÇÃO PARA O EXERCÍCIO DA CAPACIDADE DE AGIR, SENTIR E TAMBÉM DE PENSAR.
