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Dissertações

Hans Jonas: uma ética orientada para o futuro

Roque Reinaldo Brand

Dissertação
Autor
Roque Reinaldo Brand
Orientador(a)
José Nedel
Universidade
UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS — UNISINOS
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2005
2005Roque Reinaldo Brand. Hans Jonas: uma ética orientada para o futuro. 2005. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS, RS. Orientador(a): José Nedel.2

As ações humanas, do ponto de vista ético, empreendidas hoje e que afetam profundamente o futuro da humanidade e da biosfera, são o tema central deste trabalho. As reflexões são calçadas no pensamento de Hans Jonas, filósofo judeu-alemão (1903-1993). Com seu “princípio de responsabilidade”, ele tenta fornecer os fundamentos e a aplicabilidade das normas éticas para as ações humanas atuais com vistas “à permanência de uma vida humana autêntica sobre a Terra”. No trabalho procura-se também mostrar alguns aspectos marcantes da trajetória existencial e intelectual do autor. Seus estudos acadêmicos e sua obra sobre o gnoticismo (Die Gnosis und spätantiker Geist), sua militância na frente de batalha contra o nazismo e suas reflexões sobre o fenômeno da vida (The Phenomenon of Life, Toward a Philosophical Biology). Por fim, as reflexões sobre o “galopante progresso” (galoppierenden Vorwärts) da técnica que faz a civilização desembarcar num “vazio ético” (ethisches Vakuum), uma vez que as normas anteriores, antropocêntricas, já não são suficientes para regular o poder desmesurado da humanidade que, qual “Prometeu desacorrentado”, ameaça a “permanência de uma vida humana autêntica sobre a Terra”. Dessa fase, a obra central é Prinzip Verantwortung. Versuch einer Ethik für die technologische Zivilization (Princípio responsabilidade: tentativa de uma ética para a civilização tecnológica). O presente estudo está centrado nesta obra. Nas suas reflexões, Hans Jonas faz distinção entre técnica pré-moderna, que era “posse e estado”, e a técnica moderna, que é “empreendimento e processo”. Na primeira, as ações humanas não causavam grandes alterações no entorno; eram danos superficiais e auto-recuperáveis. A natureza conseguia defender-se, “cuidava de si mesma”. Na segunda, começa a aparecer “a preocupante vulnerabilidade” (die kritische Verletzlichkeit) da natureza e do próprio homem que se tornou também objeto da técnica. Esta distinção leva também a distinguir a postura. Na ética tradicional, a T?XV? era neutra; a ética era antropocêntrica; o homem era uma constante; o hic et nunc era o que comandava as ações humanas. Em outras palavras, ninguém era responsabilizado por efeitos posteriores, longínquos, pois o futuro remoto não fazia parte das preocupações éticas. Isso tudo mudou. A práxis técnica, como “empreendimento e processo”, extrapola os limites da proximidade e contemporaneidade. Os efeitos das ações humanas são cada vez mais cumulativos, imprevisíveis e incontroláveis. São, cada vez mais, o produto do que já foi feito. Diante desta constatação, Hans Jonas chega à conclusão que as regras anteriores, antropocêntricas, podem continuar valendo no relacionamento imediato, mas já não são suficientes para garantir “o primeiro imperativo: que haja uma humanidade”. Para implementação desta nova ética, que vai preencher o “vazio ético”, a ética orientada para o futuro (Zukunsftsethik), Hans Jonas propõe o seu “princípio de responsabilidade”. Sobre a responsabilidade, aliás, ele afirma que “a teoria ética, em seu conjunto, tem sido tão calada”. Distingue a responsabilidade em horizontal e vertical, em recíproca e não-recíproca, em formal e substantiva, além de propor uma distinção entre a responsabilidade pelo que foi feito e pelo que se vai fazer. O paradigma da responsabilidade não recíproca que Hans Jonas pleiteia para uma ética orientada para o futuro é baseado na responsabilidade paterna. A responsabilidade dos pais para com os filhos é ditada pela própria natureza do objeto; a sua existência e seu aperfeiçoamento dependem totalmente de quem é responsável por ele. A esta responsabilidade paterna é comparada a responsabilidade do político para com os cidadãos que o elegeram. No trabalho procura-se, por fim, discutir alguns conceitos e idéias inovadoras do pensamento jonasiano: a heurística do temor (Heuristik der Furcht) que deve orientar nossas ações; os prognósticos catastróficos e a futurologia; a idéia de democracia e a ditadura benevolente; a responsabilidade e a idéia de liberdade. A conclusão do estudo é de que a proposta de Jonas é inovadora, ousada, ambiciosa, original e, até certo ponto, revestida do caráter de tentativa. Não podemos esquecer os subtítulos do livro, seja na edição original alemã, seja na tradução inglesa, orientada por ele. (No alemão: Versuch; no inglês: search). Nas pegadas de Hans Jonas, a reflexão filosófica deve cada vez mais andar de mãos dadas com as pesquisas científicas e suas aplicações tecnológicas.