Dissertações

Ideologia e ética

Vanderlei Calloni

Dissertação
Autor
Vanderlei Calloni
Orientador(a)
Hans-Georg Flickinger
Universidade
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL — PUC/RS
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2000
2000Vanderlei Calloni. Ideologia e ética. 2000. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL, RS. Orientador(a): Hans-Georg Flickinger.2

A centralidade da dissertação dá-se em torno de uma vinculação entre ideologia e ética, ambas aparecendo como elementos de uma totalidade histórico-social produzida pela praxis humana na sua relação com a natureza e os outros homens. Mediante a categoria da totalidade concreta, das formas de produção e reprodução da vida humana, é possível afirmar que a ética nasce na determinação de relações tais que levem em conta primeiramente a subsistência material dos homens. Mas nestas relações apresentam-se interesses materiais que, sendo a essência das classes em relação, determinam a própria forma das relações. A determinação das formas de relações materiais é prerrogativa da classe que se impõe por conta de seu poder e de sua força. Mas há um conflito latente entre as classes que precisa ser dissimulado, e é então que a ideologia cumpre o papel de legitimadora do interesse vigente, tornando tal interesse a representação ética da sociedade. É assim que a ética acaba por cumprir um papel de amortecedor social, uma vez que chama pelo cumprimento de padrões de conduta e princípios historicamente e materialmente determinados, apresentando-se, contudo, seja como produto da razão livre, seja tomando a sociedade sem levar em conta sua gênese histórico-material, seja ainda concebendo o mal como agente causador da ação anti-ética. Este último, o mal, é objeto de uma análise especial porquanto embora um elemento metafísico, foi responsável, pela fundamentação de inúmeras éticas, principalmente as com forte acento religioso. .. A dissertação, apropriando-se de categorias da dialética marxista, considera que mesmo as éticas que cindem a realidade em mundo racional e mundo material, colocando unicamente no primeiro a possibilidade ética, expressa, em verdade, uma cisão já existente na realidade social mesma, em que parte comanda a estrutura social e sente-se nela realizada, enquanto outra parte sente-se subjugada. Para que não venha a subverter a realidade existente torna-se necessário, por parte da primeira, dominar ideologicamente a segunda, antepondo-lhe uma visão de mundo que dê um lugar àquilo que noutra visão apareceria desconexo. .. É sempre a base material que determina a consciência e as formas de conhecimento, e não o contrário, repetindo um chavão marxista. Mas a base material não se move sozinha, senão que é produto da praxis humana. Nem a consciência é um reflexo passivo e mecânico da realidade exterior. Há entre a realidade e a consciência uma relação dialética de tensionamento, uma incidindo sobre a outra. Mesmo as representações metafisicas da realidade social, que lhe negam a materialidade contraditória, mesmo estas, são uma forma de apresentação do mundo, uma visão social do mundo em que a materialidade acaba posta e justificada naquela inversão hipostasiada da realidade. .. Não há um problema ético-moral existente ao lado da realidade social; é dentro da própria dinâmica social e nos seus conflitos internos que o problema será encontrado, não mais em sua aparência formal e inerte, mas viva e ativa. Esta visão alcança a gênese das formações sociais e, por compreender sua transitoriedade histórica, permite a ação concreta. A ideologia vigente é confrontada por outra, ambas traduzindo interesses por formas de relações sociais. Superado o conflito por outra formação social, uma outra ética afirma-se.