- Autor
- MARCO ANTONIO VALENTIM
- Orientador(a)
- MARIA DAS GRACAS DE MORAES AUGUSTO
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO — UFRJ
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2002
O diálogo Timeu de Platão consiste numa longa narrativa, feita pelo personagem homônimo ao modo de um mito verossímil, cujo tema é a natureza e gênese da totalidade do mundo. Logo em seu início, já é apresentada a questão principal, a saber, como o mundo, sensível e mutável, porém belo e """"formoso"""", pode surgir desde o ente inteligível e imutável, que ele deve tomar por paradigma para tornar-se uma imagem do mesmo; ou seja, de que modo ambos se articulam, para que, numa tal articulação - o lógos -, que funda, com a diferença essencial (o khorismós) entre eles, a sua semelhança, dê-se o mundo. Por sua vez, a resposta de Timeu inclui, num momento decisivo, a indicação de um terceiro princípio metafísico, compreendido como o âmbito em que pode ter lugar a semelhança ou participação das coisas que vêm a ser nas formas eternas, a gênese do mundo. Este âmbito é a abertura (khóra), a qual, caracterizada essencialmente como sendo informe, constitui por assim dizer o fundamento insubstancial de toda possível formação. Havemo-nos, então, com um manifesto paradoxo, o de que tudo quanto tem forma e, desse modo, vem à presença tem como causa """"algo"""" absolutamente destituído de determinação e, portanto, ausente do discurso (álogos). Por conseguinte, a concepção cosmológica do Timeu deixar-se-ia resumir numa tese que é a própria subversão do moderno princípio de razão: do nada - khóra - tudo - kósmos - se gera. Em que sentido é preciso entender isso? Tem-se o direito de fazer de uma suposta contradição o princípio de uma cosmologia, de um aparente absurdo o ponto de partida e a finalidade de uma compreensão da ordem do mundo, enfim, de uma presumida falta e carência o fundamento de toda positividade? Quais são precisamente a consistência e o modo de ser da negatividade que cerca a natureza do princípio? Eis o nosso problema, que não é outro senão o da possibilidade de uma conexão, essencial à gênese do mundo, entre a khóra e o lógos. Tendo isso em vista, na primeira parte desta dissertação, investigamos a informidade do fundamento para compreendê-lo, antes de mais nada, como a abertura das formas; na segunda parte, a partir da demonstração de que as formas devem convir essencialmente à abertura, procuramos chegar ao sentido próprio da delimitação, platônica por excelência, do fundamento como forma. Por fim, na terceira e última parte do trabalho, trata-se de tornar evidente em que medida o mundo vem a ser como uma única e sempre mesma totalidade articulada de semelhanças, a cada vez diversamente determinada pelo encontro originário de khóra e lógos.
