- Autor
- João Marcelo Crubellate
- Orientador(a)
- Rogério Miranda de Almeida
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ — PUC/PR
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2012
O objetivo central desta dissertação é investigar a relação paradoxal entre a.liberdade e os diferentes modos de existência em Kierkegaard, com base na relação também paradoxal entre as categorias de possibilidade e necessidade, categorias que ele utiliza para explicar a existência humana. A partir dessa relação o ser humano aparece no mundo como personalidade, isto é, como realização de si mesmo. Investiga-se, assim, essa questão sob a perspectiva dos três principais estádios existenciais kierkegaardianos: o estético, o ético e o religioso. No estádio estético, o indivíduo deriva livremente de uma a outra possibilidade, de modo que o resultado é uma personalidade que decorre da ocasião que se apresenta, que não se dá a qualquer necessidade e que, portanto, configura um Eu que não é mais do que o produto de um contínuo devir de oportunidades, mesmo que contraditórias, que a existência objetivamente lhe proporciona. Liberdade, nesse estádio, é apenas livre-arbítrio ou, liberdade de escolha, liberdade da indiferença. Já no estádio ético a liberdade vem a aparecer no dever (necessário) de se tornar espírito, isto é, personalidade íntegra e unificada, que devém a partir da indistinção primordial entre possibilidade e realidade. A existência é, deste modo, um trabalho de escolha de si mesmo a cada instante, podendo, por isso mesmo, perder-se também a cada instante. Nesse sentido proposto pelo ético, o indivíduo é interiorização de si mesmo, é liberdade verdadeira no sentido de determinação da vontade, que não devém pela ocasião, mas se impõe às ocasiões e as aceita ou rejeita, como próprias a si mesmo, mediante o Eu que deve vir-a-ser. Finalmente, no estádio religioso, chega-se à conclusão de que resta ao indivíduo dar à sua existência um sentido absoluto, organizando-a à luz da eternidade. No religioso o télos da existência humana ultrapassa a própria existência, ultrapassa a síntese de si consigo mesmo – um Eu ideal, referência do devir ético – e se realiza, finalmente, na relação absoluta com o Absoluto. Aqui a liberdade verdadeira assume o sentido de determinação do ser, transformação do espírito humano, para o que a fé no deus-na-existência, o paradoxo absoluto que é também o fundamento do cristianismo, é o princípio único e suficiente. Porém, mesmo nesse estádio, esse resultado consiste apenas em possibilidade que, se não for tomada como necessidade pelo próprio indivíduo, em sua interioridade, não evitará o risco sempre presente de que ele venha a se perder no caminho de sua existência.
