- Autor
- Thamara Moretti Soria Jurado
- Orientador(a)
- Wolfgang Leo Maar
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS — UFSCAR
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2007
Nosso trabalho pretende investigar as análises de Adorno acerca do estilo tardio de Beethoven na tentativa de compreender a importância delegada as obras deste compositor que levaram Adorno a identificá-lo como o início de um processo que culminaria em Schoenberg. Para tanto utilizaremos os seus fragmentos compreendidos na obra Beethoven: The Philosophy of Music, em especial “The Late Style I e II”..Beethoven está inserido num contexto social entre o século XVIII e o XIX, que na música é chamado de classicismo, período no qual a sociedade passa por intensos questionamentos proporcionados pelo iluminismo. Outros valores passam a ser apregoados, são estes que fizeram do humanismo burguês a esperança da civilização humana. Num período no qual a liberdade individual, como a escolha do próprio destino, é colocada como possível. São os valores que originam as idéias progressistas, afirmam a superioridade da razão, do conhecimento, possibilidade de realização da liberdade individual, momento no qual o esclarecimento é entendido como a possibilidade de emancipação. .O compositor respira a atmosfera revolucionária e rende-se ao entusiasmo do novo espírito. As suas composições contêm esse impulso revolucionário que pode ser compreendido nos elementos da música burguesa, como a sua linguagem, substância e tonalidade. Entretanto, esse sentimento vai perdendo o seu ímpeto inicial com a descoberta da impossibilidade de realização dos objetivos e valores trazidos pelo ideal emancipa tório, particularmente entre o segundo e o terceiro período. .O esclarecimento é muito bem discutido por Adorno e Horkheimer na “Dialética do esclarecimento” (1985) no qual a tradição deste que seria o grande valor capaz de possibilitar a emancipação humana é questionado desde sua origem. Nessa discussão são aproximados o mito e o esclarecimento e na reflexão sobre o pensamento ocidental são questionados os motivos pelos quais a sociedade não está entrando num estado verdadeiramente humano mas ao contrário está cada vez mais próxima de uma estado de barbárie. .Em linhas gerais, a descoberta de que o elemento esclarecedor na verdade pretende organizar o mundo com os instrumentos que detém especialmente através de aspectos ideológicos, que podem ser associados à crença e ao mito, traz a necessidade de questionar os meandros ocultos do esclarecimento. .Esses instrumentos corroboram para manter a maioria dos indivíduos num estado de ignorância imposto por uma cultura aparentemente democrática mas que na verdade mantém-se como um dos veículos mais importantes para a dominação, revelado na segunda parte da obra “Indústria cultural. Esclarecimento como mistificação das massas”..Nesse contexto de organização do mundo moderno, a ideologia é estabelecida como um componente essencial para manter a ordem tal como estabelecida pela dominação econômica. Então, no lugar do esclarecimento nos damos conta do obscurecimento que acomete a consciência do sujeito. .Diante do fenômeno da indústria cultural a própria cultura passa a ser definida como uma indústria com metas de lucros entre outras coisas que a determinam uma rentável atividade econômica. O poder exercido por essa indústria não deve ser subestimado uma vez que é a partir de seus mecanismos que se cria uma identidade falsa entre o universal e o particular, como se o indivíduo e o todo estivessem reconciliados quando a realidade é que há um poderoso instrumento para gerar lucro e exercer um controle social..Grosso modo, podemos concluir que a música nesse processo todo pode colocar-se a serviço dessa realidade coisificante ou torna-se a voz que exprime a verdadeira condição do sujeito na sociedade. .A obra de arte, seja a música, a pintura ou mesmo a literatura, contém a possibilidade de manter a autonomia diante da massificação cultural imposta ela indústria cultural na qual os bens culturais são vendidos e utilizados na manutenção de sua lógica da reconstrução “cultural” da sociedade..As composições de Beethoven, particularmente as do seu terceiro período, são anti-harmônicas e marcadas com um traço de profundo sofrimento, expressam a impossibilidade de reconciliação entre as contradições existentes na sociedade real, eis o conteúdo de verdade exigido à obra de arte autêntica..Beethoven representaria o centro da música moderna para Adorno e os subsídios utilizados para sustentar essa afirmação estão ancorados no último estilo do compositor, talvez um pouco antes, no período de transição entre o segundo e o terceiro, ou seja, o período de maturidade. .Nessa fase madura há uma ruptura essencial, que representa uma descontinuidade na história da música, qual seja, o rompimento com os valores apregoados pelo humanismo burguês que a partir desse momento passam a ser questionados em sua possibilidade de realização. .A obra de Beethoven costuma ser dividida em três fases. Na primeira, de 1792- 1800 estão localizadas as suas primeiras peças publicadas em Viena, que incluem os trios Opus 1, a Sonata Patética, os dois primeiros concertos para piano e a Primeira Sinfonia, além de outras obras tradicionais, mas que já apresentam alguns traços pessoais. .A segunda fase, no período de 1800 a 1814, é especialmente marcada pelas decepções amorosas e a surdez do compositor, aqui são identificadas as composições: Sonata opus 26 (Marcha Fúnebre), Sonata ao Luar, sua primeira Sinfonia, sonata opus 27 e mi bemol, Sonata opus 53 em dó- a Waldstein, Sonata Apassionata entre outras. Nesse período Beethoven compõe a sua terceira sinfonia, a Heróica, que na verdade iria se chamar Bonaparte, mas o compositor rasga a folha onde estava o nome ensila da composição quando soube que aquele que considerava o herói da república tinha se tornado imperador..O último período, de 1814 a 1827, é identificado como o das grandes inovações, Nona sinfonia, a Missa Solene, os últimos quartetos de cordas. Trata-se do momento mais importante para as considerações de Adorno..O objetivo do presente trabalho é investigar as análises de Adorno acerca do estilo tardio de Beethoven na tentativa de compreender a importância delegada as obras deste compositor que levaram Adorno a identificar nele o início de um processo que culminaria em Schoenberg. Para tanto utilizaremos os seus fragmentos compreendidos na obra Beethoven: The Philosophy of Music, em especial “O estilo tardio de Beethoven” I e II..O primeiro capítulo traça uma discussão acerca da época d esclarecimento, na qual Beethoven está diretamente envolvido, até mesmo é considerado por alguns musicólogos como o protótipo do revolucionário burguês. A discussão realizada na Dialética do Esclarecimento tornou-se diante desse objetivo, essencial para desvendar a problemática gerada nesta lógica e a indústria cultural, indispensável ao processo de massificação e coisificação. .Esse desenvolvimento gera algumas indagações a respeito da música e sua relação com a sociedade, afinal como a música pode escapar desse processo de massificação? Como a sociedade está inserida na forma musical? Portanto, a intenção nesse momento é desvendar a relação entre a música e a sociedade. .O segundo capítulo concentra-se em Beethoven, e nesse momento podemos estabelecer a relação do compositor com a sociedade através de suas composições. Iniciamos com as suas fases consideradas clássicas, a primeira e a segunda, procurando desvendar os elementos presentes em suas composições, na importância que é atribuída a forma-sonata e qual a sua relação à sociedade burguesa. .Especialmente motivados pela afirmação de Adorno de que a tonalidade representa a essência do trabalho de Beethoven, entramos no tópico Tonalidade no qual o propósito é justamente compreender qual a importância desse sistema para as discussões de Adorno. .O Estilo Tardio é o período mais importante e enigmático. Nesse tópico, o nosso objetivo é discutir as inovações desse período, salientando algumas composições que, afinal, geraram as conclusões de Adorno. Podemos citar algumas particularidades desse período que são discutidas por Adorno, tais como, a utilização das convenções, a simplicidade apresentada em algumas composições e o reconhecimento da possibilidade de reconciliação das contradições.
