- Autor
- Cézar Cardoso de Souza Neto
- Orientador(a)
- Constança Terezinha Marcondes Cesar
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS — PUCCAMP
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2003
Apesar de viver tão poucos anos, Max Scheler (1874 - 1928 ) e ainda não muito conhecido no Brasil, autor de uma vasta obra filosófica, busca em sua obra principal, O Formalismo na Ética e a Ética Material dos Valores, ressaltar a importância do ser humano, centralizando a pessoa como centro do cosmos. Max Scheler considera o amor como o valor central da pessoa, que a move, impulsiona e atrai, pois todos os seus sentimentos estão regidos pelo amor Scheler fundamenta a ética dentro da axiologia como expressão plenamente humana, buscando centralizar todas as questões éticas no conceito de valor. Formula uma concepção que promove a unidade total do ser humano. Busca a verdade integral do ser humano, chegando à intuição emocional : há uma referência direta e imediata ao objeto e tal referência não é de caráter intelectual, a pessoa capta o valor com uma apreensão imediata, com um ato do sentimento, que se dirige à realidade, nela podemos ver revelados os valores. A intuição emocional não está unida ao objeto exteriormente ou através de uma representação, nem o objeto aparece como sinal de algo que se oculta sob esta. Captamos os valores por meio das vivências emocionais da intuição emocional. Esta intuição emocional proporciona o conhecimento dos valores e integra esses mesmos à personalidade. A axiologia no nível de experiência fenomenológica vincula o ser humano com sua própria verdade. A experiência intencional humana recupera seu posto principal ao unificar concretamente toda sua capacidade humana. Descobrir valores é incumbência da percepção afetiva humana. Para Scheler, o ser humano é o protagonista dos valores, é capaz de comunicar-se de maneira interpessoal, um valor social, próprio de sua condição humana. Somente a pessoa pode comunicar seu pensamento livre e emotivo sobre si mesmo. A comunicação expressa as capacidades raciocinar e de ser livre, pois a comunicação é um valor enquanto atualização do ser humano, concretizando o valor de sua dignidade intrínseca. O valor ético da pessoa existe graças à dignidade do ser humano, pois ficaria sem sentido pretender falar de ética de seres não humanos, unicamente o ser humano poderia ser o sujeito dos valores éticos graças à sua condição humana. Somente o ser humano é capaz de sentir e de experimentar como um ser racionalmente livre, e não podem equiparar-se a nenhum outro ser da criação. Seus sentimentos nascem de um ser dotado de razão, de um ser que pode amar de um modo exclusivamente próprio, graças à sua percepção emocional da realidade. A objetividade axiológica é a peça central do sistema scheleriano. Nossos sentidos captam os objetos de ordem material, que são os bens individuais e concretos, captamos de dois modos as essências: teóricas: aquelas que são apreendidas pela inteligência; valiosas: são objeto da intuição dos sentimentos, presididos pelo amor. Scheler diferencia um fazer o bem ( baseado num dever) do fazer por valor; Para Scheler o conhecimento e a adesão intencional aos valores consistirão no próprio caminho do ser humano. O conhecimento """"entraria"""" pela porta dos sentidos, penetrando depois, mediante a intuição das essências, no conhecimento dos fatos. A ajuda que o ser humano recebe para conhecer não vem de algo externo a ele, mas provém do próprio valor de sua pessoa, pois a objetividade dos valores está vinculada ao reconhecimento do valor integral do ser humano, de seu conhecimento, de sua vontade e de seus sentimentos. Scheler desvela o valor da pessoa como valor fonte, protagonista de todo processo relacional. O problema do conhecimento para Scheler não é somente uma função de caráter intelectual, mas de maior participação ativa do ser humano na aquisição de todo o conhecimento, englobando o ser humano como um todo, e não só seu intelecto. Notamos a diferença entre a fenomenologia de Husserl e de Scheler está justamente em que os sentimentos para Scheler são uma outra fonte de conhecimento, através da intuição emocional, sendo que esta leva a pessoa a alcançar sua própria identidade. Esta intuição marca de tal forma o ser humano que suas faculdades ficam unificadas com a forma de sentir da pessoa. Notamos a diferença entre a intuição: intuição emotiva é própria da pessoa com um todo, enquanto que a intuição sensível é particular de seus sentidos. O ser humano tende natural e espontaneamente ao bem valioso e o sujeito dessa tendência são seus sentimentos superiores. Para Scheler o ser humano está vinculado ao mundo no qual está inserido, captado pelos sentidos. Os sentimentos são impulsores da atividade humana, da atuação da pessoa, porém todos os sentimentos estão regidos pela inteligência, por isso não há como separar os sentimentos da racionalidade. Há uma simbiose entre a razão e os sentimentos, pois pertencem à mesma pessoa. O ser pessoal seria o valor fonte, pois todos os valores têm relação com o ser humano. A pessoa para Scheler é o valor essencial, pois a pessoa não vale, ela é. A axiologia scheleriana reconquista sua dimensão antropocêntrica, pois o ser humano é o valor fonte, através do qual todos os valores são captados e vividos. O ser humano é o único ser capaz de progredir em sua auto-realização, graças ao descobrimento cada vez maior da sua própria identidade. A dignidade é para Scheler um valor essencialmente humano, que o torna verdadeiramente pessoa, pois somente o ser humano é capaz de tomar consciência cada vez maior de seu valor e de um maior desenvolvimento de sua liberdade pessoal. Scheler entende o valor da livre auto-realização humana através da participação do amor no núcleo pessoal, como momento interno da auto-realização humana. O ser humano possui uma dignidade incomparável, graças ao valor de seu próprio ser pessoal, descobrindo no valor da pessoa humana o valor transcendente. Scheler tem como objetivo principal resgatar o valor da pessoa humana. O valor da identidade do ser humano é uma realidade viva, uma experiência de valores na vivência mais profunda da pessoa. Essa experiência não pode dar-se sem amor, porque está estreitamente vinculada ao amor, pois o amor para Scheler é um movimento até um valor positivo, uma adesão do ser humano. O amor para Scheler seria o mais nobre de todos os sentimentos humanos, pois teria primazia sobre os outros. O amor é experiência, pois proporciona à pessoa, de maneira ativa no próprio ato de amar. Amar é comunicar-se é abrir-se aos demais colocando o próprio dom a serviço dos demais a fim de que se construa uma unidade interpessoal. O amor é ato da pessoa, dá vida ao ser que se ama e ao elevar o ser amado, eleva-se a si mesmo. O amor é um valor enquanto é a ação mais elevada da própria pessoa. Enquanto o entendimento tende à realidade, tal como é apreendida, o amor leva a um conhecimento superior da pessoa, que escapa ao entendimento. A razão exige assentimentos incondicionais, pretende convencer o outro, o amor, por sua vez, respeita as diferenças pessoais, as assume conscientemente para que a união interpessoal seja fruto de sua riqueza pluralista. O amor é um valor enquanto ação mais elevada da própria pessoa. Para Scheler, o amor se dirige aos valores pessoais de caráter positivo. O vínculo entre o amor e a pessoa constitui a simbiose entre pessoa, amor e valor, formando um laço tão forte que não se rompe, justamente devido ao amor. O amor da pessoa é suscetível a aumento constante, pois à medida que se intensifica, se aprofunda. Scheler destaca o amor como ato fundamental da pessoa em seu sistema axiológico. A fenomenologia scheleriana é inseparável do amor e dos valores, pois o amor é o único caminho que conduz ao descobrimento dos valores. Para Scheler, a plena sintonização pessoal com o outro significa amar tanto quanto o outro ama, fundir o amor com o outro na plenitude do nós, num amor único.
