Voltar para Dissertações
Dissertações

O escândalo do escândalo da filosofia: Transcendência e “refutação do idealismo” em Heidegger

GERMANO NOGUEIRA PRADO

Dissertação
Autor
GERMANO NOGUEIRA PRADO
Orientador(a)
PEDRO COSTA REGO
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO — UFRJ
Programa
LÓGICA E METAFÍSICA
Grau
MESTRADO
Ano
2009
2009GERMANO NOGUEIRA PRADO. O escândalo do escândalo da filosofia: Transcendência e “refutação do idealismo” em Heidegger. 2009. Dissertação (MESTRADO em LÓGICA E METAFÍSICA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, RJ. Orientador(a): PEDRO COSTA REGO.2

O interesse da presente dissertação é investigar a questão da transcendência na medida em que ela pode ser compreendida como a questão do acesso do sujeito às “coisas” (ao ente como tal, ao “mundo”). A questão será encaminhada no âmbito da ontologia fundamental entendida como analítica da existência do existir (Dasein), analítica que é desenvolvida por Heidegger com vistas à colocação da questão do sentido do ser. A nossa tese é a de que a interpretação de Heidegger a respeito daquele problema se constitui em diálogo com uma posição que, pelos termos em que coloca a questão do acesso ao “mundo”, denominamos de “interpretação moderna”. Em linhas gerais, tal posição consiste em uma interpretação mais ou menos consciente do ser do sujeito e do “mundo” que, estabelecendo uma cisão entre estas duas instâncias, liga a questão do acesso ao ente ao chamado “problema do mundo externo”. Este problema consiste basicamente em pôr em dúvida que tenhamos acesso a um ente que seja outro que não nós mesmos e que este outro (o “mundo”) subsista. Sobre a base daquela interpretação e como resposta a este problema surgiriam as posições extremas tradicionalmente compreendidas pelas designações de “idealismo” e “realismo”. Em correspondência a isso, propomos o seguinte exercício: seguir a discussão de Heidegger a respeito do problema do mundo externo para ver em que medida é possível falar que ele, ao encaminhar o problema do acesso às “coisas mesmas”, pretende “refutar o idealismo” – e, em verdade, também o realismo. Tal refutação consiste em demonstrar que o “problema do mundo externo” é um problema sem sentido, na medida em que está fundado em uma interpretação ontológica “inadequada” do ser do sujeito, do “mundo”, bem como da relação entre estes entes. Essa demonstração, por sua vez, se realiza em uma descrição fenomenológica que dá a ver a transcendência, compreendida enquanto relação com o outro (o ente, o mundo, o ser) que está “além” do ente que eu mesmo sou, como constitutiva do ente que cada um de nós é. Em particular, importará aqui o fato de que esta descrição demonstra que a relação de acessibilidade ao ente que nós mesmos não somos (as coisas, o “mundo”) e ao ser deste é constitutiva do nosso próprio ser, na medida em que este é fundamentalmente um ser em relação ao ente (transcendência ôntica) a partir da compreensão de ser (transcendência ontológica). Com isso, não faz sentido duvidar da realidade efetiva do “mundo” e do acesso a este, visto que este duvidar mesmo é já um ser junto ao “mundo”, de modo a ter acesso a ele. É a partir da distinção entre transcendência ôntica e ontológica, na medida em que tal distinção se funda na diferença entre ente e ser (diferença ontológica), que se definirá o estatuto da ontologia fundamental em face dos títulos – em sua oposição, modernos por excelência – realismo e idealismo.