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Dissertações

O ético e o hermenêutico sob o viés imanentista de Spinoza

José Soares das Chagas

Dissertação
Autor
José Soares das Chagas
Orientador(a)
Emanuel Angelo da Rocha Fragoso
Universidade
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ — UECE
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2011
2011José Soares das Chagas. O ético e o hermenêutico sob o viés imanentista de Spinoza. 2011. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ, CE. Orientador(a): Emanuel Angelo da Rocha Fragoso.1

A presente dissertação tem como escopo uma abordagem do sistema filosófico de Spinoza a partir do conceito de “imanência”, enfocando a dimensão ética e hermenêutica. O imanentismo é o ponto de unidade de um pensamento que não descuida dos problemas práticos, sem com isso deixar o rigor reflexivo do racionalismo. Neste sentido, o problema da liberdade é posto em relação com a necessidade natural e é vista de uma maneira diferente da tradição. Ora, como tudo o que existe segue uma ordem eterna e imutável, decorrente da perfeição da substância única, nada do que ocorre pode ser resultado da indeterminação. E se assim é, a liberdade não pode ser concebida como uma interferência na ordem natural, mas somente como o conhecimento das leis que regem o mundo e que faculta, a partir disso, a autodeterminação frente aos eventos naturais. Este racionalismo absoluto, que a tudo procura ver sob o signo da necessidade, é o mesmo que irá se deparar com o problema de uma aparente desordem natural, cuja ignorância consequente passa por saber divino. Trata-se da Superstição, um sistema de conhecimento confuso pretensamente capaz de explicar a natureza por meio da afirmação de um princípio transcendente, que a tudo criou ao seu bel-prazer. Mas como no interior de um pensamento racional poderá se admitir um objeto de natureza “irracional”? A postura filosófica aqui adotada é diferenciada, pois parte do princípio de que mesmo realidades que parecem irracionais possuem uma causa determinada, que deve ser investigada à semelhança de como os geômetras tratam os seus objetos. Com efeito, é na nossa própria tendência natural em buscar se autoconservar, que está a resposta para o fenômeno que parece interferir ou subverter a ordem natural. No esforço de buscar o que lhe é útil, o homem persegue fins; e não sabendo da determinação de sua vontade, pensa que este telos está na própria natureza e constitui uma realidade transcendente e misteriosa. Pensando a natureza de maneira antropomórfica, cria uma série de obrigações para com este princípio caprichoso, as quais são manifestas por meio de sinais, os quais só alguns podem decifrar. Por isso, tal concepção de mundo se arvora o papel de ordenar a vida social e política dos homens por meio de um poder teológico, fundado na interpretação da vontade insondável de Deus, cuja fonte é a sacra scriptura. A maneira como Spinoza vai lidar com este problema será mediante uma verdadeira emendatio e interpretatio dos conceitos teológicos, os quais serão reduzidos a um conhecimento de ordem imaginativa, cuja função é a de apenas despertar a obediência e a piedade no vulgo. E para evitar os efeitos funestos da intervenção política da superstição, reclama a subordinação da religião ao poder do Soberano, argumentando que a sociabilidade esta fundada no pressuposto ontológico do “esforço” comum em se preservar; e que, por conseguinte, fora do Estado nenhuma regra ou norma possui força de lei. Desse modo, fica claro que todo o pensamento imanentista de Spinoza não é senão uma filosofia voltada para a liberdade.