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Dissertações

O Microcosmos: a questão do solipsismo no Tractatus Lógico-Philosophicus de Wittengenstein (uma interpretação da Seção 5.6)

Ben-Hur Canabarro Furlan

Dissertação
Autor
Ben-Hur Canabarro Furlan
Orientador(a)
Silvia Altmann
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL — UFRGS
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2010
2010Ben-Hur Canabarro Furlan. O Microcosmos: a questão do solipsismo no Tractatus Lógico-Philosophicus de Wittengenstein (uma interpretação da Seção 5.6). 2010. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL, RS. Orientador(a): Silvia Altmann.2

Segundo Wittgenstein, a investigação que culminou no Tractatus Logico-.Philophicus ‘avançou dos fundamentos da lógica para a essência do mundo’ (NB,.2.8.1916). Com a lógica, Wittgenstein procura abarcar as regras de descrição do.mundo por proposições (T:3.01,4.26) e, então busca as condições que tornam.significativas as sentenças, dispensando considerações metafísicas (T:6.53) e.mentalistas (T:4.1121). Quando afirmamos que Wittgenstein dispensa considerações.metafísicas queremos com isso dizer que não há, no Tractatus, qualquer.preocupação em responder de modo propositivo qual a constituição da realidade ou.de que se compõe a nossa experiência. Por sua vez, quando afirmamos que o.filosofo dispensa considerações mentalistas estamos nos referindo ao fato de que.sua investigação sobre os fundamentos da lógica não parte de representações que.possuam algum caráter subjetivo como, por exemplo, a noção de juízo na filosofia.moderna. Essa posição frente à filosofia é, na verdade, uma conseqüência da idéia.segundo a qual a lógica deve cuidar de si mesma (T: 5.473). Logo, se a essência do.mundo, para Wittgenstein, não se resolve na elaboração de um sistema metafísico,.será um esforço vão qualquer tentativa para responder, apenas por meio da lógica,.qual a realidade última das coisas. Do mesmo modo, se não há, no Tractatus,.fundamento para uma abordagem mentalista da linguagem, tampouco deve haver.para tematizar a lógica de um ponto de vista subjetivo no qual, por exemplo, as.proposições descrevam as representações privadas dos indivíduos. Todavia, no.aforismo 5.62, o filósofo afirma que o que se quer dizer com a “tese” solipsista é.correto, entretanto, não pode ser dito, mas é algo que se mostra..Em sua primeira obra, Wittgenstein explica a tese solipsista do seguinte.modo:.Que o mundo seja meu mundo, é o que se mostra nisso: os limites da.linguagem (a única linguagem que eu entendo) significam os limites de meu.mundo (T:5.62) 2..Eu sou meu mundo. (O microcosmos) (T:5.63).2 Essa é a tradução correta da frase entre parênteses do aforismo 5.62, conforme correção feita por.Wittgenstein à tradução inglesa do Tractatus (cf.: Anscombe, 1996, 167; J. Hintikka, 1966, 161;.Mounce, 1981, 91). Estamos em débito com o Prof. Dr. Paulo Faria por ter chamado nossa atenção.para esse ponto do texto tractariano..8.O primeiro desses excertos parece ser uma formulação alternativa à versão.clássica do solipsismo3. Contudo, no segundo, ao colocar o sujeito como.‘microcosmos’ e identificá-lo com o mundo, ao que tudo indica, Wittgenstein.considera o mundo como a totalidade de suas vivências privadas, vindo, portanto, ao.encontro da noção clássica de solipsismo. Em textos posteriores, a elucidação.dessa doutrina aproxima-se ainda mais da formulação tradicional..A proposição que somente a experiência presente é real parece conter a.derradeira conseqüência do solipsismo. E, em certo sentido, isso é assim;.apenas o que é capaz de dizer tão pouco [quanto a sentença anterior –.BCF] pode ser dito pelo solipsista (PR, 1990: 85)..Essas passagens bastam para testificar a dificuldade de conciliar o conceito.de solipsismo, assim como esses excertos o apresentam com a filosofia da lógica do.Tractatus. Há, contudo, nessas citações – ainda que implicitamente ?, um ponto.comum, a saber, o enfoque do tema se dá a partir de certa noção de lógica da.linguagem..O objetivo deste trabalho consiste em apresentar alguns pontos necessários.para que se possa compreender:.1) O que Wittgenstein quer dizer com a afirmação segundo a qual ‘o que o.solipsismo quer significar é inteiramente correto’ (T:5,62)?.2) Como a ‘verdade do solipsismo’ resulta, ou melhor, vem a ser pressuposta.como uma das condições formais de toda filosofia tractariana da lógica?.Entre os pontos que destacamos para esclarecer a essas perguntas estão:.a) a linguagem – a proposição, para ser mais exato – como meio de.representação a partir do qual delimita-se o que se pode dizer com sentido;.b) a forma de afiguração como a coordenação dos elementos da figuração.segundo uma forma lógica;.c) compreender que esse movimento que leva da essência da linguagem à.essência do mundo passa pela questão do solipsismo não só para atender.3 A versão clássica desse conceito filosófico pode ser assim definida:.‘A doutrina segundo a qual toda a existência é experiência e há apenas um sujeito dessa experiência’.(LALANDE, 1993, 1054)..9.os compromissos de sua filosofia da lógica, mas para lograr os objetivos.práticos, sobretudo éticos, almejados por Wittgenstein em sua obra..Para alcançar nossos objetivos, dividimos este trabalho do seguinte modo:.Em primeiro lugar, devemos observar que há pelo menos um fim colimado tanto pela.filosofia da lógica do Tractatus quanto pela doutrina solipsista, a saber, estabelecer.um limite ao pensamento e, assim, traçar um limite aos fatos que podem ser.pensados. Esse limite, como se vê nos excertos citados, Wittgenstein o encontra na.linguagem. Essa tarefa nos levará a indagar, na primeira seção deste trabalho, sobre.o que Wittgenstein entende por pensamento no Tractatus e suas relações com a.linguagem. Iniciamos por duas afirmações feitas pelo filósofo, à primeira vista.inconciliáveis, a respeito do conceito de pensamento. Buscamos, então, nos textos.de Wittgenstein, a noção que elucida o conceito em apreciação, isto é, a noção de.‘figuração lógica’. Com isso, provamos que todo signo que satisfaz as condições.para ser figuração lógica pode representar (afigurar) um fato. Ser uma figuração.lógica, portanto, é justamente o que caracteriza o conceito de pensamento..Constatamos, contudo, que há, para a tarefa de traçar os limites do pensamento, a.primazia da linguagem sobre as demais formas de figuração, ou seja, de expressão.do pensamento. O ponto é importante, pois é na linguagem que, segundo.Wittgenstein, devemos procurar os limites do pensamento e do que pode ser.pensado..Uma vez discutido o primado da linguagem para a investigação realizada no.Tractatus, cabe explicar porque é necessário delimitar os limites da linguagem. Essa.tarefa cumprir-se-á na segunda seção do primeiro capítulo. Revelar-se-á ainda,.naquela seção, que o objetivo principal do Tractatus concerne aos temas da filosofia.prática. Conhecidas as razões para traçar os limites da linguagem, mostramos, na.primeira seção do segundo capítulo, como tais limites são traçados. Para tanto,.precisamos conhecer a idéia na qual a filosofia tractariana da lógica apóia-se..Segundo o ‘Grundgedanke’ do Tractatus’ as constantes lógicas não estão por.objetos’ (T:4.0312), ou seja, elas não simbolizam qualquer elemento que possa.pertencer à essência do mundo. Em seguida, provaremos que há apenas ‘uma.constante lógica’, isto é, a forma geral da proposição (T:5.47). A constante lógica é a.forma de uma função de verdade, ou melhor, é uma variável proposicional que.determina uma classe de proposições. Como única constante lógica a forma geral é,.10.para dizer em poucas palavras, a regra fundamental da sintaxe lógica com a qual.todo uso dos signos deve estar de acordo para afigurar os fatos. Ela é, pois, a única.condição formal que a lógica pode apresentar a priori para servir de limite à.linguagem..Quanto às regras sintáticas e às formas lógicas, reza o Tractatus que só.existem em uso (T:3.327). Se é possível antecipar as formas das proposições.complexas, é porque conhecemos a forma geral da proposição e pressupomos que.as proposições elementares têm sentido (T:6.124). O mesmo não ocorre, entretanto,.com as proposições elementares. Segundo Wittgenstein, não é possível antecipar a.forma – e tampouco o conteúdo – das proposições elementares valendo-nos.exclusivamente da forma geral. A solução desse problema contribui fortemente para.a solução do problema do solipsismo, como teremos oportunidade de mostrar na.segunda seção do capítulo segundo. Além disso, a solução dada ao problema das.proposições elementares também será de grande valia para, no terceiro capítulo, dar.solução à questão do solipsismo..Finalmente, deter-nos-emos, no terceiro capítulo, a examinar a seção.propriamente dedicada ao solipsismo (T:5.6-5.641). O ponto que defenderemos é.que, segundo o Tractatus, a correta compreensão do solipsismo distancia-se da.formulação clássica, isso porque, do ponto de vista lógico, não há sujeito da.representação. O sujeito transcendental (ou metafísico), do qual nos fala.Wittgenstein, reduz-se à unidade da intencionalidade, comum a todas as.proposições..Consideramos importante esclarecer que este trabalho não visa expor a.evolução da filosofia de Wittgenstein. Cabe ainda advertir que não pretendemos.esgotar os temas aqui tratados. Almejamos, antes de tudo, contribuir para o estudo.do pensamento de Wittgenstein, de modo que outros possam vir e fazer melhor.