O VENTRE DE LEVIATÃ: A FILOSOFIA DE AUTO-CONHECIMENTO DE THOMAS HOBBES
Francisco Ricardo Cichero Kury
- Autor
- Francisco Ricardo Cichero Kury
- Orientador(a)
- Thadeu Weber
- Universidade
- PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL — PUC/RS
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2000
Na filosofia política de Thomas Hobbes existe uma concepção de autoconhecimento que, em geral, não é sequer mencionada pelos comentaristas deste autor. Esta concepção é, inclusive, mais rica que a socrática por ter superado um problema crucial: o intelectualismo. Tal problema é o responsável pelo """"Paradoxo de Sócrates"""". Posto que, para Sócrates, o mal somente tem origem através da ignorância do bem, não se compreende como é possível o surgimento do mal ainda que se conheça o bem. Este problema foi superado pela filosofia de Hobbes à medida em que o homem passa a ser percebido como um ser passional e racional; - e não apenas racional. Entretanto, isto é apenas o início da concepção hobbesiana de autoconhecimento. Para Hobbes, o homem somente pode se autoconhecer através de uma fabulação que é permitida pela faculdade imaginária. Esta fabulação consiste na célebre descrição da bellum omnium contra omnes e se concentra na figura mitológica do Levitã. Contudo, tal fabulação não equivale a mera invencionice. Trata-se de uma ›xij de guerra absoluta, estado passível de, um dia, ser verificado em qualquer sociedade humana. Mas é necessário advertir-se que a imaginação meramente reprodutiva não seria capaz de sustentar o fato de que, para se autoconhecer, é necessário que o homem fabule uma ›xij de guerra absoluta. O autoconhecimento formulado por Hobbes somente efetiva-se através de uma outra modalidade de imaginação que ultrapassa a natureza simplesmente reprodutiva das sensações: a imaginação prospectiva. Todavia, a capacidade prospetiva da imaginação não foi elaborada expressamente por Hobbes; - ainda que, em sua obra máxima, O Leviatã, ele a pressuponha. Através desta capacidade a imaginação confere a consciência do tempo dentro do Estado-Leviatã, e, por decorrência, permite que este seja reduplicado e nele o cidadão possa de autoconhecer. Esta reduplicação, que, em última análise, é leitura e efetivação do autoconhecimento, é mantida através da idéia de contrato social e deve ser realizada pelo rei-leviatã. Justifica esta reduplicação dois princípios da filosofia política que exsurgem da reflexão de Hobbes sobre a natureza humana: a guerra absoluta entre todos os indivíduos (primeiro princípio) demonstra que """"não há regra comum do bem e do mal"""" (segundo princípio). Esta verdade adverte que o autoconhecimento não se efetiva de modo apenas abstrato, pois ele nasce de entre dois níveis de conflito político. O primeiro nível é representado pelo amálgama de conflitos entre o homem e o cidadão, o cidadão e o cristão e entre este último e o homem. O segundo nível enseja maior universalidade por aumentar o grau de abstração: são os amálgamas de conflitos entre o fato da morte e a razão, entre a razão e a Civitas e entre esta e o fato da morte. No centro de todos estes conflitos ocorre a possibilidade de autoconhecimento; - possibilidade de somente se efetiva quando a natureza humana, representada na figura também imaginária do Leviatã, reduplica-se no Estado-Leviatã. Deste momento em diante, surgem possibilidades inúmeras para a filosofia política de Thomas Hobbes que se concentram para renová-la inteiramente: é possível fazer da imaginação a categoria filosófica fundamental para a construção de uma nova filosofia política de índole hobbesiana. Na novidade desta conjectura há uma tarefa árdua: reescrever-se o estado de natureza de Hobbes através de elementos imaginários.
