- Autor
- Cláudia Bacelar Batista
- Orientador(a)
- João Carlos Salles Pires da Silva
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA — UFBA
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2005
O objeto principal desta Dissertação é a primeira obra de George Berkeley, An Essay towards a New Theory of Vision, publicada em 1709. A confiar em uma certa tradição, esta obra se situaria na pré-história da filosofia berkeleyana, não sendo de todo própria de sua filosofia, nem mesmo propriamente filosófica. Ela seria pouco mais e pouco menos um escrito científico, condenado a não figurar na história da filosofia e, porque superado ou errôneo, a ser esquecido pela história da ciência. Ao contrário, nossa Dissertação procura recuperar a obra em seu estatuto filosófico e em sua riqueza, apresentando-a inclusive, em edição bilíngüe, como um apêndice. Acompanhando cuidadosamente sua argumentação, mostramos como Berkeley nela antecipa e prepara sua obra futura, ao tratar da percepção da distância, da questão da magnitude e do problema da localização dos objetos. Com efeito, serve-se Berkeley dessas questões para defender suas idéias, respectivamente, quanto à percepção, à heterogeneidade das idéias e a crítica à linguagem, de modo que esse seu texto, além de introdução natural a seu sistema, é uma expressão preciosa de seu singular empirismo. O problema da distância, por exemplo, pode então emergir como pano de fundo para a tese empirista que toma a experiência como a base evidente de todo e qualquer conhecimento, do clássico esse est percipi, que expressa enfim o deslocamento do célebre problema do cego de Molyneux à condição de paradigmática constituição do que pode ser a experiência, sendo dirigida sua resposta não simplesmente a como vemos, mas sim (como resposta filosófica) a como sabemos que vemos ou, em suma, a como podemos ver. De forma semelhante, a heterogeneidade das idéias, talvez a tese central da obra, servirá sobretudo para demonstrar o idealismo e o imaterialismo berkelyeanos, redundando, em última instância, em uma crítica da linguagem, uma crítica ao uso e ao abuso dos signos lingüísticos, cuja atualidade tem sido, aliás, muito ressaltada pelos comentadores mais recentes. Enfim, em grande medida, a obra matiza e exemplifica a própria separação entre campos de saberes distintos (nesse caso, entre filosofia e ciência), relacionando a natureza da investigação filosófica à investigação das possibilidades de constituição de qualquer conhecimento. Desse modo, é clara sua relevância, e certo seu lugar capital e formador na história da filosofia.
