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Dissertações

Que siguinifica orientar-se? Contrapartidas incongruentes e identificação demonstrativa.

Rogério Passos Severo

Dissertação
Autor
Rogério Passos Severo
Orientador(a)
PAULO FRANCISCO ESTRELLA FARIA
Universidade
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL — UFRGS
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2000
2000Rogério Passos Severo. Que siguinifica orientar-se? Contrapartidas incongruentes e identificação demonstrativa.. 2000. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL, RS. Orientador(a): PAULO FRANCISCO ESTRELLA FARIA.3

RESUMO de Que significa orientar-se? Contrapartidas incongruentes e identificação demonstrativa (Dissertação de mestrado - Porto Alegre: UFRGS, 2000)....Em diferentes momentos de seu desenvolvimento intelectual, Immanuel Kant forneceu explicações diversas para o fato de que podemos distinguir e identificar contrapartidas incongruentes. Em seu artigo de 1768, usou esse fato para provar a realidade do """"espaço absoluto"""", argumentando que a identificação de orientações dependeria da sua existência. Na Dissertação de 1770, alegou que nossa faculdade de intuir é responsável por sermos capazes de notar a diferença entre duas contrapartidas incongruentes. E em obras posteriores, alegou que nossa habilidade de diferenciar contrapartidas incongruentes forneceria uma evidência para a tese do idealismo transcendental. Há uma idéia comum subjacente a todos esses argumentos, a saber, que há certas coisas - tais como contrapartidas incongruentes - que identificamos demonstrativamente e que não podem ser identificadas meramente por descrição (conceitualmente). ..Argumentos análogos podem ser encontrados na filosofia analítica contemporânea. O argumento de Strawson, segundo o qual a identificação de coisas particulares é fundamentalmente demonstrativa (em Individuals, cap. 1), e o de Prior, segundo o qual identificações demonstrativas do tempo não podem ser reduzidas a identificações não-demonstrativas do tempo (em """"Thank Goodness That""""s Over""""), são análogos estruturais do argumento das contrapartidas incongruentes de Kant. A analogia diz respeito tanto ao resultado dos argumentos - o caráter fundamental da identificação demonstrativa para nossos pensamentos sobre objetos empíricos, lugares, momentos e direções - quanto ao método de demontração. Todos esses argumentos são, em sentido amplo, transcendentais. Eles começam com uma premissa que é tomada como evidente e que expressa algum aspecto de nossa experiência (por exemplo, que reconhecemos a diferença entre duas contrapartidas incongruentes), e suas conclusões expressam uma condição transcendental da verdade dessas premissas - por exemplo, que temos uma capacidade cognitiva diferente e irredutível àquela que Kant chamou de entendimento...O principal interesse filosófico de Kant nas contrapartidas incongruentes estava no fato de elas fornecerem exemplos de coisas que somos capazes de distinguir conceitualmente e que, no entanto, não seríamos capazes de reconhecer ou identificar se todas as nossas capacidades cognitivas fossem meramente conceituais. Tem sido argumentado por comentadores contemporâneos que Kant cometeu um erro ao alegar - como parece tê-lo feito em sua Dissertação de 1770 - que a diferença entre contrapartidas incongruentes não pode ser notada conceitualmente: uma intuição é necessária. Essas críticas estão corretas em sustentar que distinções conceituais de contrapartidas incongruentes são possíveis. No entanto, passam ao largo do argumento de Kant: se todas as nossas capacidades cognitivas fossem meramente conceituais, então, apesar de sermos capazes de distinguir duas contrapartidas incongruentes, não seríamos capazes de saber qual é qual - não poderíamos reconhecer cada uma por sua orientação específica (digamos, direita ou esquerda), o que obviamente somos capazes de fazer...O argumento de Kant dirige-se contra a concepção leibniziana do espaço. Já os argumentos de Strawson e Prior dirigem-se contra o que pode ser chamado de descritivismo. Strawson põe em dúvida, por exemplo, a inteligibilidade da notação canônica de Quine, alegando que a eliminação de termos singulares implicaria na impossibilidade de identificações demonstrativas, e que isso tornaria toda identificação de particulares sensíveis impossível. Mas, ao contrário do que Strawson pretende, o uso proposto por Quine para sua notação preserva a identificação demonstrativa. De acordo com Quine, identificações demonstrativas podem ser expressas por descrições (demonstrativas). Assim, a crítica de Strawson não demonstra o que pretende...Entretanto, Strawson está certo ao enfatizar o papel da identificação demonstrativa no que concerne aos nossos pensamentos sobre coisas particulares. Mas não está claro se a forma lógica desses pensamentos deveria ser tomada como geral ou particular. Se, seguindo Quine, assumimos um ponto de vista observacional (inspirado nas ciências naturais), não há fato algum que nos permita decidir se nossos pensamentos sobre coisas particulares são gerais ou particulares. Qualquer resposta dependeria de nosso """"manual de tradução"""", e seria subdeterminada pelas evidências. Mas se, seguindo Kant e Strawson, partimos da perspectiva da primeira pessoa, que toma como indubitáveis certos fatos da experiência ordinária, então qualquer análise de nossos pensamentos sobre coisas particulares identificadas demonstrativamente tem de tomá-los como singulares.