Razão e coração na antropologia de Rousseau: uma leitura do Émile
MARIA CÉLIA VEIGA FRANÇA
- Autor
- MARIA CÉLIA VEIGA FRANÇA
- Orientador(a)
- TELMA DE SOUZA BIRCHAL
- Universidade
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS — UFMG
- Programa
- FILOSOFIA
- Grau
- MESTRADO
- Ano
- 2003
Para trabalhar os conceitos de razão e coração (sentimento) no pensamento de Rousseau, tentamos mostrar que ele elabora um conceito novo de razão, cuja função é além de designar um lugar novo para a razão, sua maior inovação acontece quando propõe um outro conceito de sentimento, dando-lhe uma função e uma importância que até então não possuía. Neste sentido, partimos da suposição da existência de um dualismo entre razão e sentimento na filosofia de Rousseau, mas chegamos enfim à conclusão de que não há este dualismo, mas deve haver antes uma íntima união ou harmonia entre eles para que a moralidade humana seja alcançada. A moral rousseauniana é também muito inovadora, por ser uma moral do sentimento, que nem por isso exclui a razão, já que seu conceito de sentimento é bastante amplo e chega a englobar inclusive a razão. A moral de Rousseau demanda então a presença de razão e de sentimento, mas exige ainda um terceiro fator: a descoberta, por parte do indivíduo, da religião. No entanto, para atingir sua finalidade, não basta que o indivíduo se torne moral, ele deve ainda fazer a passagem para a sociabilidade e para a civilidade. Poderíamos então dizer a plenitude da natureza humana em Rousseau é alcançada quando o indivíduo atinge a maturidade, a sociabilidade e a civilidade, através da harmonia da razão e do sentimento. Esta seria então a plenitude da natureza do homem social, que não pode incluir nem a criança, nem o homem selvagem, já que eles não desenvolvem os elementos apontados acima, mas se limitam ao amor de si e à razão sensitiva. Poderíamos então afirmar que a criança e o homem selvagem não estão aptos para atingir a plenitude da natureza humana? Acreditamos que Rousseau não faz essa afirmação, mas propõe a existência de duas naturezas humanas: a do homem social - que engloba razão, sentimento, moralidade, sociabilidade e civilidade - e a do homem selvagem e da criança - que é bem mais simples que a do homem social e compreende o amor de si e a razão sensitiva. Rousseau demonstra claramente sua preferência pela primeira, mas não despreza a segunda, pois, levando em conta o estado desnaturado e corrompido a que chegaram os homens, a natureza simples do homem selvagem seria ainda preferível.
