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Dissertações

SOBRE O ENTRELAÇAMENTO ENTRE AS CRÍTICAS À MORAL E À POLÍTICA EM NIETZSCHE.

ADRIANA DELBÓ LOPES

Dissertação
Autor
ADRIANA DELBÓ LOPES
Orientador(a)
MARIA CECILIA MARINGONI DE CARVALHO
Universidade
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS — PUCCAMP
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2000
2000ADRIANA DELBÓ LOPES. SOBRE O ENTRELAÇAMENTO ENTRE AS CRÍTICAS À MORAL E À POLÍTICA EM NIETZSCHE.. 2000. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS, SP. Orientador(a): MARIA CECILIA MARINGONI DE CARVALHO.1

Este trabalho tem como ponto de partida uma afirmação de Nietzsche em Além de Bem e Mal : """" o movimento democrático constitui a herança do movimento cristão """". A motivação inicial foi a curiosidade em saber o que um elemento político que se acredita secularizado herdaria de um elemento religioso. A intenção neste trabalho foi expor, então, o que foi-se entendendo do que o movimento democrático herda do Cristianismo no pensamento de Nietzsche. É por este viés que foi abordado aqui o pensamento político de Nietzsche : pelo viés da crítica ao Estado democrático moderno. Nietzsche critica no Estado democrático moderno o que ele tem de cristão: a moral do rebanho, do homem que se deseja igual a qualquer outro, negando em si o que poderia haver de melhor, porque se destacar dos outros é tido como algo negativo. Portanto, a crítica de Nietzsche é antes de tudo uma crítica a toda moral que representa a negação da vida ( do corpo, do mundo terreno por exemplo). Só que a crítica à moral em Nietzsche não é restrita à moral cristã, porque para ele foram Sócrates e Platão que inauguraram um tipo de moral que nega a vida; aliás Nietzsche considera Sócrates uma antecipação na filosofia do que o apóstolo Paulo foi posteriormente para a religião e o Cristianismo, mera forma de platonismo para o povo. Daí a necessidade de mostrar também a critica de Nietzsche a Sócrates e a Platão no que diz respeito ao tipo de moralização que trouxeram à Grécia Antiga. O problema desta moralização está relacionado ao fato de ela impedir a afirmação incondicional da vida própria dos gregos. É por isso que foi necessário no mínimo traçar um perfil amplo e recortado do homem grego antes de Sócrates e Platão. Esse homem grego é o parâmetro a partir do qual Nietzsche critica o homem moderno -- é o homem trágico que se contrapõe ao homem teórico de Sócrates. Se antes o grego admitia e aceitava que o absurdo, a dor e a morte são inevitáveis na existência e tinham na arte trágica uma forma de transfiguração da existência, já a partir de Sócrates há o otimismo da crença de que a razão pode curar as feridas da existência, de que a partir do conhecimento é possível corrigir o real. Platão por sua vez teria trazido a idéia de que somente contemplando as idéias do mundo supra sensível pode-se chegar ao bem em si. É por isso que Nietzsche vê em Sócrates e Platão a negação dos impulsos primordiais da vida de tudo o que pode significar valorização do mundo terreno. O Cristianismo seria então o máximo de condenação da vida terrena ao exacerbar a noção de culpa, trazendo a noção de vida eterna como forma de redenção e fazendo com que essa existência fosse mera ponte para outra vida. O Cristianismo ultrapassa os limites da religião e constrói um homem ideal a democracia da política moderna: o homem livre para escolher como agir, mas que diante de qualquer chance de escolher de maneira inadequada tem a culpa tão interiorizada que se torna um homem totalmente confiável para o cumprimento do código criminal; um homem que se pretende tão igual a qualquer outro que se orgulha da multidão uniformizada da qual faz parte, da escravidão que legitima através da super-valorização do trabalho, o homem, enfim, que aceita como princípio o amor ao próximo mesmo quando isso equivale à negação de si mesmo. Se o homem heróico antigo tinha várias formas de disputam para se destacar e ser glorificado e imortalizado, o homem moderno vê a disputa e a inveja com os olhos do pecado. Se antes o estado aristocrático grego propiciava o destaque dos indivíduos, o Estado moderno promove o nivelamento e, se o homem trágico grego conseguia afirmar incondicionalmente a vida sem negar seu caráter absurdo, o homem moderno tenta corrigir a existência pela tirania da racionalidade, pela ilusão de que é possível negar o real. É com esse tipo de homem moderno e cristão que o Estado democrático completa o nivelamento da decadência humana, iniciada na opinião de Nietzsche, por Sócrates e Platão.