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Dissertações

Valores: um estudo sobre a não-neutralidade da ciência

PAULO SÉRGIO G. SOARES

Dissertação
Autor
PAULO SÉRGIO G. SOARES
Orientador(a)
ISABEL MARIA FREDERICO RODRIGUES LOUREIRO
Universidade
UNIVERSIDADE EST.PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO/MARILIA — UNESP/MAR
Programa
FILOSOFIA
Grau
MESTRADO
Ano
2004
2004PAULO SÉRGIO G. SOARES. Valores: um estudo sobre a não-neutralidade da ciência. 2004. Dissertação (MESTRADO em FILOSOFIA) — UNIVERSIDADE EST.PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO/MARILIA, SP. Orientador(a): ISABEL MARIA FREDERICO RODRIGUES LOUREIRO.2

Este trabalho apresenta a contribuição de Hugh Lacey para a tradição analítica na filosofia da ciência no que tange ao processo racional de escolha entre teorias rivais a partir de uma perspectiva que envolve valores e fornece as bases para uma nova forma de ciência voltada para a resolução dos problemas sociais. Analisamos a concepção do autor segundo a qual a ciência se desenvolve de acordo com """"estratégias de restrição e seleção"""" cujo papel é restringir as teorias a serem consideradas e selecionar os dados empíricos relevantes para o teste das mesmas. A partir daí, dentro de cada estratégia, a seleção de teorias se dá em função dos valores cognitivos, tais como adequação empírica, simplicidade, poder explicativo, etc., de maneira tal que não permite interpretações relativistas. Uma estratégia é adotada pela comunidade científica com base em valores morais e sociais e a sua função é sintetizar as possibilidades dos fenômenos a fim de atender às perspectivas de alguma estrutura de valor. Segundo Lacey, a ciência moderna adota uma única estratégia, a estratégia materialista, responsável pela produção de teorias que representam o mundo em termos de leis, estruturas e processos subjacentes, sem levar em conta os contextos social, cultural e ambiental, isto é, gerando teorias pretensamente neutras que informam práticas tecnológicas, aplicáveis em princípio a quaisquer estruturas de valor. Esse ideal de racionalidade concebe a ciência como um empreendimento livre de valores morais e sociais, sendo aceito pela tradição analítica na filosofia da ciência como uma forma universalmente válida de produção científica. Especial ênfase é dada à tese de Lacey de que a ciência moderna não está livre de valores, uma vez que a estratégia materialista mantém uma relação de reforço mútuo com a supervalorização do controle da natureza (um valor social), dando origem a teorias bem sucedidas em práticas tecnológicas. Essas práticas tecnológicas atendem aos valores capitalistas, reforçados na atual fase do neoliberalismo, evidenciando uma não-neutralidade da ciência, exemplificada pelas pesquisas na área da biotecnologia que, na aplicação à agricultura produz os organismos transgênicos, patenteados e altamente lucrativos para o agronegócio. Nesse sentido, Lacey contesta a idéia de uma ciência livre de valores, argumentando que na ciência moderna investigação e aplicação não se dissociam, e que estratégias alternativas podem ser adotadas pela comunidade científica com base em valores morais e sociais populares. Procuramos ressaltar, com Lacey, que tais estratégias identificam novas possibilidades para os fenômenos na aplicação tecnológica, levando em conta os contextos humano e ecológico. Finalmente, sugerimos que um exemplo de estratégia alternativa aplicada à agricultura, oposto à abordagem biotecnológica, é a agroecologia, considerada pelo autor um modelo de ciência preocupada com problemas sociais e ambientais.